A Cidade Fortaleza de E-Rantel ficava no cruzamento das Três Fronteiras — Teocracia Slane, Império Baharuth e Reino Re-Estize. Foi assim chamada porque para defendê-la havia três grandes muros. Os distritos cercados por cada círculo concêntrico dos muros eram distintamente diferentes uns dos outros.
O distrito mais externo era às vezes usado para despachar as tropas do Exército Real, e por isso estava totalmente mobiliado com quartéis e outras instalações militares.
O bairro mais interno era a área administrativa da cidade. Além disso, o distrito também continha depósitos de suprimentos alimentares do Exército Real. Sendo assim, era fortemente protegido.
Entre essas duas áreas estava o distrito residencial, onde as pessoas de E-Rantel faziam suas casas. Este lugar se encaixava melhor na imagem que vem à mente quando se pensa em uma cidade.
Havia várias praças aqui, e a maior delas era chamada de Praça Central. Havia muitas barracas de legumes, especiarias e outros produtos comerciais.
Em meio às multidões, os donos das barraquinhas gritavam com ânimo suas ofertas à venda para transeuntes e senhoras de idade que discutiam com os mercadores enquanto escolhiam os alimentos mais frescos. Atraídos por aromas defumados, os jovens compravam espetos de carne assada, a suculência ficava evidente nos sucos quentes que escorriam pelas fibras.
A atmosfera barulhenta e energética desse lugar deveria ter durado até o sol se pôr. No entanto, de repente ficou em silêncio quando um par de figuras emergiu de um prédio de 5 andares nas proximidades.
Todos na praça congelaram onde estavam; seus olhos foram atraídos para os dois.
Uma dessas duas pessoas era uma garota que parecia estar no final da adolescência. Seus olhos afilados brilhavam como ônix e seu cabelo, liso e lustroso de cor preta, estava amarrado como um rabo de cavalo. Sua pele branca como a neve brilhava como pérolas ao sol.
O que mais chamou a atenção foi o ar de elegância que a rodeava, que andava de mãos dadas com sua beleza exótica que faria qualquer um olhar mais de uma vez. Embora vestisse apenas um manto marrom sem grandes detalhes, sua beleza o fazia parecer a mais bela das vestimentas.
O sexo de seu parceiro era duvidoso. Ou melhor, não havia como dizer se era homem ou mulher.
Alguém murmurou “Guerreiro Negro”.
De fato, essa pessoa estava embainhada em um conjunto intrincadamente cravejado — uma armadura de placas completa — e as bodas da armadura eram adornadas com ouro. Não havia como ver o rosto de seu portador através das fendas estreitas do elmo fechado. Um par de espadas grandes eram visíveis abaixo da capa vermelha, que pareciam tão impressionantes quanto a armadura.
Os dois olharam em volta e a pessoa totalmente armadurada deu um passo à frente.
Os espectadores observaram o par desaparecer ao longe e imediatamente começaram a sussurrar sobre o que tinham visto. Eles não pareciam ter medo de suas espadas ou armaduras.
Isso porque o prédio que o par acabara de deixar chamava-se “Guilda dos Aventureiros”. Era um lugar que só os caçadores de monstros profissionais frequentavam, por isso não era estranho ver pessoas paramentadas saindo de lá. Na verdade, várias outras pessoas equipadas de forma similar haviam deixado o prédio nesse meio tempo. Aqueles com olhos atentos podem ter notado um par de placas de cobre penduradas no pescoço da dupla.
Dito isso, os dois atraíram toda essa atenção por causa da beleza da mulher e da armadura de placas de seu parceiro.
♦♦♦
A dupla caminhava amenamente por uma estrada estreita.
A luz do sol refletia na água capturada pelos sulcos das carroças que passaram na estrada. Ao contrário das estradas de paralelepípedos, a água aqui estava misturada com terra e areia, o que tornava traiçoeiro caminhar sem prestar atenção. O descuido de um momento resultaria em uma provável queda, mas os dois possuíam um excelente equilíbrio, e assim, caminharam ao longo da estrada rapidamente, como se estivesse em boas condições.
Depois de verificar que não havia mais ninguém ao seu redor, a mulher de pés ágeis virou-se para a pessoa totalmente armadurada ao seu lado disse:
“Ainz-sa—”
“—Não, meu nome é Momon. E você não é Narberal Gamma, Empregada de Batalha da Grande Tumba de Nazarick, mas sim Nabe, parceira de aventura de Momon.”
O homem de armadura — Ainz — interrompeu a garota — Narberal — na metade da pergunta.
“Ah! Minhas desculpas, Momon-sama.”
“Além disso, não use honoríficos como -sama. Somos simples aventureiros e companheiros. Seria estranho se dirigir a mim assim.”
“M-mas! Como eu poderia ser tão desrespeitosa com um Supremo?”
Ainz gesticulou para que Narberal mantivesse o tom de voz baixo. Ela havia se deixado levar pela excitação do momento. Então, em um tom que estava em algum lugar entre a resignação e o desamparo, ele respondeu:
“Como eu já disse várias vezes, neste lugar eu sou Momon, o Guerreiro... ou melhor, apenas Momon o seu parceiro. Então não me chame de -sama. Isso é uma ordem.”
Após um breve silêncio, Narberal relutantemente respondeu:
“Entendido, Momon-sa—n.”
“Esqueça isso, tudo bem assim. Na verdade, não precisa sequer usar -san. Afinal, como posso explicar... Abordando seu parceiro como -san pode fazer as pessoas pensarem que existe uma distância entre nós.”
“Mas... isso não seria muito desrespeitoso...?”
Ainz deu de ombros quando Narberal murmurou.
“Não podemos revelar nossas verdadeiras identidades. Você entende isso?”
“Claro.”
“...Seu tom... mm, esqueça. De todo modo... o que eu quero dizer é que você deve ter muito cuidado com suas palavras e ações.”
“...Entendido, Momon-sa—san. Mas é realmente certo eu acompanhá-lo? A bela e gentil Albedo-sama não seria melhor para essa tarefa?”
“A Albedo...”
As palavras de Ainz traíram seus sentimentos complexos quando respondeu:
“Eu preciso dela para administrar Nazarick enquanto estou fora.”
“...Embora eu tenha medo de ofendê-lo, a tarefa de administrar Nazarick não poderia ser dada ao Cocytus-sama? Todos os Guardiões dizem isso também... que, por causa da sua segurança pessoal, Albedo-sama é a melhor escolha como sua companheira de viagem. O senhor não acha?”
A pergunta de Narberal fez Ainz sorrir amargamente.
Entre todos os Guardiões, Albedo havia se oposto fervorosamente quando Ainz anunciou sua decisão de visitar E-Rantel. Tudo começou quando ela soube que não seria capaz de acompanhar Ainz em sua jornada.
Após ter vindo a este misterioso novo mundo, Ainz tentou dar uma volta sem seus vassalos, algo pelo qual Albedo se culpou. Assim, ele não poderia repreendê-la com muita severidade. No entanto, esta foi uma expedição deliberada, ao contrário do passeio que ele tinha feito da última vez, e por isso ele teve que se manter firme em sua decisão.
Como Guardiã, ela obedeceria a suas ordens sem hesitar, mesmo que conflitassem com suas próprias opiniões. No entanto, Ainz não pensava nisso como uma coisa boa. Todos os Guardiões eram o produto do árduo trabalho de seus companheiros de guilda, e ele se sentia culpado por forçar sua vontade sobre eles.
Portanto, Ainz tentou persuadir Albedo — que discordou firmemente com ele — a mudar seu modo de pensar. No entanto, nenhum deles pôde aceitar as opiniões uns dos outros. No início, Ainz pensou que eles ficariam em um impasse para sempre, mas depois que Demiurge sussurrou algo no ouvido de Albedo, sua resistência de repente evaporou. No final, ela aprovou totalmente sua jornada e até se despediu com um belo sorriso.
Até agora ele ainda não sabia o que Demiurge havia dito a ela. Ainz estava um pouco desconfortável com o que poderia ter feito Albedo reverter sua opinião tão de repente.
“...Eu não a trouxe junto porque confio nela mais do que em qualquer outra pessoa. É porque enquanto ela estiver em Nazarick, minha mente ficará em paz.”
“Agora entendo! Em outras palavras, Albedo-sama é a pessoa mais próxima do senhor, Momon-sa—n?”
Enquanto ele não respondesse, “Mm, bem, basicamente isso” não satisfaria as perguntas de Narberal.
“Estou plenamente ciente de que isso é potencialmente perigoso.”
Ainz levantou a mão direita e mexeu o dedo anelar.
“No entanto, isso é algo de minha responsabilidade. Se eu ficar em Nazarick, há uma chance de que eu possa cometer um erro de cálculo. Portanto, preciso fazer pessoalmente contato com o mundo exterior... na verdade, existem outros métodos que eu poderia usar, mas todos me deixam desconfortável, dado que há tão pouco conhecimento sobre a situação atual.”
“É como o senhor diz.”
Narberal respondeu, com uma expressão de compreensão no rosto.
Ainz estreitou os olhos para ela através das fendas de seu elmo, e então perguntou em um tom um tanto desconfortável:
“Eu tenho uma pergunta... Você acha que os humanos são formas de vida inferiores?”
“Sim, eles são. Os humanos são lixo inútil.”
Narberal entregou sua resposta com firme convicção e sem um momento de hesitação. Ainz murmurou:
“Ah, então você pensa assim também...”
Mas sua voz foi demasiadamente suave para alcançar os ouvidos de Narberal.
Depois disso, ele continuou resmungando:
“Eu não queria trazer a Albedo, porque a personalidade dela a faz reagir mal aos humanos. Parece que eu deveria ter verificado as personalidades dos meus subordinados de antemão.”
Uma das razões pelas quais ele não levou Albedo com ele, foi porque ela acreditava firmemente que os seres humanos eram formas de vida inferiores. Se ele trouxesse alguém assim para uma cidade altamente populosa e se descuidasse por um momento, havia uma possibilidade muito real de que pudesse olhar para trás e encontrar uma carnificina. Além disso, Albedo não tinha habilidades de disfarce e não conseguia esconder seus chifres e asas, o que marcou outro ponto contra ela.
A maior razão, no entanto, era que ele não poderia repreendê-la com severidade.
Essa era uma boa prova de que Ainz era um mero assalariado, que não tinha confiança em conduzir uma organização, confiar apenas em relatos de outros sem nenhuma observação direta de sua parte o deixaria muito inseguro. Por causa disso, ele entregou a tarefa de administrar Nazarick aos talentos de Albedo. Se alguém tivesse um subordinado capaz, permitir que se encarregasse da empresa seria um gesto sábio; a interferência de um superior incompetente levaria apenas a tragédias.
Além disso, Albedo estava presa a Ainz pelos grilhões gêmeos de “amor” e “lealdade”. Foi por isso que Ainz pôde deixar as operações da Grande Tumba de Nazarick para ela.
Amor, huh...
Toda vez que ele via Albedo, e toda vez que ela declarava ardentemente seu amor, Ainz era lembrado do erro que cometera ao alterar as configurações de Albedo. De fato, nos últimos momentos antes do final do jogo, ele mudou a narrativa de suas configurações de personagem, para que ela estivesse apaixonada profundamente por Momonga — em outras palavras, Ainz. Claro, ele não sabia que seria transportado para esse novo mundo. Foi apenas uma piadinha que logo se encerraria.
Ainda assim, quando ele pensou sobre isso — mesmo que Albedo não se importasse —, o que seu amigo Tabula Smaragdina pensaria sobre o que Ainz havia feito?
E se ele estivesse no lugar dos seus antigos companheiros? E se seus camaradas tivessem interferido em seu NPC (Pandora’s Actor)...
Pior ainda, ele fez uso da lealdade absoluta de Albedo em relação a ele para seu próprio benefício. Ele se odiava por isso.
Ainz balançou a cabeça para afastar esses pensamentos sombrios. Embora seu corpo undead automaticamente suprimisse quaisquer emoções fortes, ele ainda experimentava emoções mesquinhas, como as que tinha quando era humano. Quando assumisse completamente um estado de espírito de um undead, talvez ele não mais sentiria esse sentimento de culpa.
Distraído por esses pensamentos, o dirigente Ainz virou-se para Narberal e disse:
“...Nabe, eu não vou dizer para afastar esses pensamentos, mas, no mínimo, se controle. Esta é uma cidade humana, e não sabemos quais indivíduos excepcionais eles têm entre si. Portanto, devemos tentar o nosso melhor para não fazer inimigos.”
Narberal inclinou-se profundamente para mostrar sua lealdade e obediência. Ainz estendeu a mão para ela, para que levantasse a cabeça. Então continuou:
“Tem mais uma coisa. Quando vamos lutar seriamente, podemos irradiar uma certa intenção assassina, os seres humanos talvez possam ser capazes de sentir. Bem, algo assim pode acontecer. Portanto, você não deve lutar seriamente sem minha permissão. Você entende?”
“Eu entendo, Momon-sa—n.”
“Muito bom... Então, a pousada sobre a qual ouvimos falar deve estar perto.”
Ainz olhou em volta.
Havia várias lojas abertas para negócios nas proximidades, com muitos clientes entrando e saindo delas. Ao lado estavam várias pessoas em aventais de trabalho, carregando mercadorias.
Neste distrito comercial densamente povoado, Ainz e Narberal tiveram que procurar a pousada inspecionando os símbolos nas placas das lojas. Isso porque nenhum deles conseguiu ler a língua deste país.
Em pouco tempo, Ainz encontrou a imagem que ele estava procurando. Seus passos se aceleraram e Narberal seguiu o exemplo.
Ele raspou a lama endurecida em seus sabatons, subiu os degraus até as portas dos salões em estilo ocidental e as abriu com ambas as mãos.
As janelas estavam fechadas e o interior estava ligeiramente escuro. Alguém acostumado à luz do lado de fora provavelmente não seria capaz de ver um palmo à frente de seu rosto. Porém, Ainz possuía a habilidade de enxergar no escuro, essa quantidade escassa de iluminação não representava obstáculo algum.
O interior era bastante espaçoso. O primeiro andar era um refeitório, com um balcão mais adiante. Esse balcão era apoiado por prateleiras que continham dezenas de garrafas de álcool. A porta ao lado do balcão provavelmente levava a uma cozinha.
Havia uma escada em espiral no canto do refeitório. Segundo a recepcionista da guilda, os quartos estavam localizados no segundo e terceiro andar. Era possível ver os clientes sentados em torno de várias mesas redondas, dispersos em seus bandos. Quase todos eram homens e o anseio por violência pairava pesadamente sobre eles.
A atenção de todos estava em Ainz. Eles olhavam para ele como se estivessem avaliando-o. A única pessoa que não prestou atenção a Ainz foi uma mulher sentada em um canto. Ela estava olhando atentamente para um pequeno frasco sob a mesa.
Esta cena de taverna fez Ainz franzir às sobrancelhas inexistentes sob o elmo.
Ele esperava algo do tipo, mas esse lugar era mais sujo do que ele imaginava.
Havia lugares sujos e repugnantes em YGGDRASIL, é claro. Até mesmo a Grande Tumba de Nazarick, a qual Ainz governava, continha lugares como os aposentos de Kyouhukou, a Caverna Venenosa, e assim por diante.
No entanto, a sujeira aqui era diferente daqueles lugares.
O chão estava coberto de restos de comida e líquidos desconhecidos, enquanto as paredes estavam manchadas e havia pedaços de alguma substância bolorenta nos cantos do recinto...
Ainz suspirou internamente e olhou para a taverna.
Um homem de avental sujo estava presente atrás do balcão, com os braços fortes saindo de suas mangas enroladas. Seus braços estavam cobertos por várias cicatrizes, e Ainz não sabia dizer se foram causadas por garras de animais ou por lâminas de algum tipo.
Estavam em algum lugar entre imponente e bestial, e havia cicatrizes em seu rosto também. Sua cabeça estava raspada, era completamente careca, sem um único cabelo em pé no couro cabeludo.
Esse homem, que mais parecia um segurança do que um estalajadeiro, avaliava Ainz enquanto segurava um esfregão em uma das mãos.
“Quer um quarto, huh? Vai ficar quanto tempo?”
Uma voz como um sino quebrado chamou Ainz.
“Queremos ficar por uma noite.”
O estalajadeiro respondeu bruscamente:
“...Um placa de cobre, huh...? Uma noite é cinco cobres. Refeição de aveia e legumes; um cobre extra. Pode escolher pão dormido no lugar da aveia.”
“Se for possível, eu gostaria de um quarto duplo.”
Ainz pensou que ele podia ouvir o homem bufando.
“...Nesta cidade aqui, há três pousadas que atendem os aventureiros, a minha é a pior das três... sabe o porquê a guilda te mandou pra cá?”
“Não. Poderia me dizer o porquê?”
Diante da resposta de Ainz, o estalajadeiro franziu a testa e disse sustentando um olhar assustador.
“Use seu cérebro, rapaz! Ou esse seu elmo chamativo é pra esconder que tem a cabeça oca, huh!?”
Ainz permaneceu calmo, apesar da resposta aborrecida do estalajadeiro. Talvez sua capacidade de resistir a essa birra infantil tenha sido o resultado de experimentar uma batalha dias atrás.
Aquela batalha — assim como a informação extraída dos prisioneiros sequestrados por ele — permitiu que Ainz entendesse o quão poderoso era. Por causa disso, ele poderia calmamente encarar esse grito.
O estalajadeiro pareceu surpreso ao ver a reação de Ainz e disse:
“...Você é bem durão, hein... O pessoal que fica aqui é aventureiro, os placas de cobre ou de ferro na maior parte. Se tiver alguma força, pode formar um grupo por aqui, isso se tiver sorte. Não há lugar melhor do que esse pra encontrar membros pro seu grupo, com força como a sua...”
Algo pareceu brilhar aos olhos do estalajadeiro.
“Sem problemas se só quiser dormir, mas se não fizer contatos aqui, não vai conseguir encontrar membros pro grupo. Se você não puder formar uma equipe forte e equilibrada, vai morrer pelos monstros. É por isso que os novatos sem companheiros se anunciam em locais cheios. Então, vô perguntar mais uma vez: quer dormir em dormitório ou num quarto duplo, hein?”
“Um quarto duplo. Dispenso a refeição.”
“Tch, outro metido a besta que não aprecia a gentileza dos outros... ou tá tentando dizer que é diferente e que essa armadura aí não é só pra se exibir... Ah, deixa pra lá, isso vai te custar sete cobres por noite. Adiantado, é claro.”
O estalajadeiro estendeu a mão em um movimento suave.
Ainz caminhou em direção as escadas, seguido por Narberal. Os dois foram banhados por olhares críticos de todos presentes no ambiente — quando, de repente, alguém colocou um pé no caminho de Ainz, como se para impedir que Ainz desse mais algum passo.
Ainz parou e encarou o homem que havia colocado o pé bloqueando o caminho.
Ele tinha um sorriso irritante no rosto, que era espelhado por todos os outros em sua mesa. Eles encararam Ainz e Narberal.
Nem o estalajadeiro nem os outros clientes se adiantaram para impedir isso. Eles estavam assistindo em silêncio.
Embora todos parecessem desinteressados no processo, ou ansiosos por um bom espetáculo, havia muitos deles que estavam estudando atentamente a situação.
Ah... Fala sério...
Ainz suspirou e chutou levemente o pé na frente dele.
De repente, o homem se levantou, como se estivesse esperando por isso. Já que ele não usava armadura completa, seus músculos protuberantes eram claramente visíveis sob suas roupas. Ele tinha um colar como o de Ainz, mas o dele era uma placa de ferro, que balançava enquanto o homem se movia.
“Ei, ei, isso doeu.”
O homem se aproximou de Ainz falando de maneira ameaçadora, o culpando pelo que havia feito. Havia uma manopla em sua mão, que ele deve ter colocado enquanto se levantava. Ela rangeu quando ele cerrou o punho.
Os dois tinham mais ou menos a mesma altura e olhavam um para o outro com olhos cheios de furor. Parecia um pouco perto demais para uma briga. Ainz decidiu disparar o primeiro tiro:
“É mesmo? Eu não consegui ver o pé na minha frente por causa do meu elmo fechado, ou talvez seja sua perna que é muito curta... bem, foi um erro da minha parte, pode me perdoar por isso?”
“...Desgraçado.”
Um olhar raivoso adentrou nos olhos do homem quando a provocação de Ainz foi dita. No entanto, ele virou seu olhar irritado para Narberal, que estava de pé atrás de Ainz, fixando os olhos nela.
“Você é um sujeitinho irritante... Mas eu sou generoso. Contanto que me empreste essa mulher aí por uma noite, ficaremos quites.”
“Ku, kukuku...”
Ainz não pôde deixar de zombar do homem, ele levantou levemente a mão para impedir Narberal de dar um passo à frente.
“...O que é?”
“Oh, não é nada. Eu não pude deixar de rir do jeito que você soa como um baderneiro estereotipado. Não se preocupe com isso.”
“Qu—?”
O rosto do homem irritado ficou vermelho.
“Ah, antes de começarmos, posso fazer uma pergunta? Você é mais forte que o Gazef Stronoff?”
“Que!? Que porra é essa que tá falando?”
“Entendo, sua reação já respondeu. Se é assim, então eu nem preciso brincar com você.”
Ainz rapidamente agarrou o homem pelo pescoço e depois ergueu o corpo do chão.
O homem não pôde nem se esquivar, muito menos resistir ao súbito agarrão. Em surpresa quando foi levantado soltou um grunhido como “Uuh!”. Os homens ao redor dele que estavam assistindo ao show só aumentaram a excitação. Quão forte é esse cara, que pode levantar um homem adulto só num braço? As imaginações de todos os presentes estavam ponderando sobre isso.
Uma onda de surpresa e consternação tomou conta da estalagem. Como se quisesse quebrar a atmosfera de choque no ar, Ainz levantou o homem — cujas pernas estavam balançando e chutando furiosamente — e gentilmente o jogou para longe.
Bem, foi gentil para Ainz.
O homem arremessado voou em uma trajetória curvilínea com velocidade assustadora, passou raspando no teto até cair, criando assim um som estrondoso.
O corpo do homem atingiu uma mesa e barulhos de coisas quebrando pôde ser ouvido.
Os objetos em cima da mesa foram quebrados junto com as tábuas da mesa que se dividira em duas, uivos de dor do homem se misturaram e ecoaram pela taverna. Então, todo o lugar ficou em silêncio, como se assustado pelo barulho. Contudo—
“OGYAAAAAAAA—!”
—No instante seguinte, a mulher que ocupava a mesa destruída, emitiu um lamento estranho. Era um grito de desespero que uma alma poderia fazer quando ascendesse ao céu.
Não, seria natural gritar assim se um homem de repente caísse do céu bem na frente de alguém. Havia outra razão aqui, havia algo a mais naquele grito perturbador.
“...Então, o que vocês planejam fazer? Podem me poupar trabalho se virem de uma só vez, o que acham? É tolice perder tempo com coisas assim.”
As palavras de Ainz foram dirigidas aos outros homens sentados à mesa do sujeito que ele acabara de arremessar. Eles imediatamente entenderam o significado e rapidamente baixaram a cabeça.
“Ah? N-não! Nosso amigo ofendeu o senhor! Lamentamos muito!”
“...Hmm. Eu perdoo vocês. Além do mais, dificilmente seriam um inconveniente. Espero que paguem o estalajadeiro por essa mesa.”
“Claro, claro que sim! A gente paga tudinho!”
Assim que Ainz sentiu que o assunto estava acabando e se virou, uma voz o congelou em seus passos.
“Espere, espere, espere aí!”
Virando-se, ele viu a mulher que tinha feito aquele grito estranho agora pouco. Ela estava afrontando-o.
Ela parecia estar em seus 20 anos ou mais jovem, e seu cabelo ruivo tinha um corte desigual, mas ainda com um bom tamanho para mexer-se enquanto gesticulava. Não poderia ser descrito como arrumado em parte alguma. Para ser mais preciso, parecia um ninho de pássaros.
Ela tinha um rosto bonito e olhos com um formato afiado. Não usava maquiagem, e seu corpo saudável estava bronzeado pelo sol. Seus braços eram musculosos e suas palmas estavam cobertas pelos calos de empunhar uma espada. A palavra que primeiro veio à mente quando a viu não foi “mulher”, mas sim “guerreira”.
Havia uma pequena placa de ferro em volta do peito e sacudia fortemente a cada passo que dava.
“Viu o que fez!?”
“O que eu fiz?”
“Hã!? Nem sabe o que fez?”
A mulher apontou para a mesa quebrada.
“Você jogou aquele cara e quebrou minha poção, minha preciosa poção!”
“E?”
“E!? Seu—!”
Seu olhar se tornou ainda mais afiado, e seu tom tornou-se baixo e raivoso.
“Me pague pela minha poção.”
“...É só uma poção...”
“...Eu passei fome e economizei para comprar aquela poção! E agora você quebrou! Eu sempre acreditei que poderia passar por uma aventura perigosa enquanto tivesse uma poção, mas agora você quebrou minhas esperanças e sonhos! E você ainda fica com uma atitude dessas? Ahhhh, isso tá me tirando do sério!”
A mulher se aproximou de Ainz.
Parecia que um touro selvagem acabara de ver o vermelho ao aproximar-se dele.
Ainz reprimiu um suspiro para si mesmo. De fato, ele cometera um erro jogando o homem sem pensar em onde poderia pousar. No entanto, Ainz tinha suas próprias razões para não pagar compensações tão facilmente.
“...Que tal pedir àquele homem? Se ele não tivesse enfiado a perna curta no meu caminho, essa tragédia não teria ocorrido. Estou errado?”
O olhar de Ainz varreu os amigos do homem através da fenda de seu elmo.
“Ah, sim, isso é certo...”
“Mas...”
“Olha aqui, eu não tô nem aí pra quem vai pagar, desde que seja uma poção ou equivalente em dinheiro... Além disso, essa poção vale uma moeda de ouro e dez de prata.”
Os homens abaixaram a cabeça. Parece que eles não tinham dinheiro para pagar. Assim, a garota fitou Ainz novamente.
“Como eu pensava, esses bêbados não teriam esse tipo de dinheiro. Bem, mas veja você e essa armadura chamativa, certamente deve ter uma poção de cura aí, né?”
Faz sentido...
Pensou Ainz. Então foi por isso que esta mulher estava pedindo a Ainz para pagar.
Ele pensou brevemente sobre isso, se recompôs e respondeu:
“Não é como se eu não— então isso era uma poção de cura, estou correto?”
“Isso mesmo. Eu economizei cada moedinh—”
“—Tudo bem, já entendi por alto. Vou pagar com outra poção e ficaremos quites.”
Ainz entregou-lhe uma Minor Healing Potion. Ela olhou para o frasco de poção surpresa, então relutantemente aceitou.
“...Então, isso nos deixa quites?”
“...Mm, sim, eu acho.”
A mulher parecia ter mais a dizer, mas Ainz deixou de lado suas dúvidas. A coisa mais importante era acalmar a inquietação de Narberal, ou ela faria algo grande e destruiria seu disfarce.
Narberal ainda tinha um olhar violento em seus olhos, embora Ainz já a tivesse repreendido. Alguns pareciam sentir essa hostilidade e se sentiam desconfortáveis.
“Vamos.”
Disse Ainz secamente à Narberal. Antes do estalajadeiro indagar, Ainz retirou uma única peça de prata de sua algibeira de couro e colocou no balcão rústico.
O estalajadeiro deslizou silenciosamente para dentro do bolso da calça e devolveu a Ainz várias peças de cobre.
“Hmn. Aqui, seis cobres de troco.”
Ele colocou as moedas de cobre na mão de Ainz e colocou uma pequena chave no balcão.
“Primeiro quarto à direita quando subir as escadas. Pode colocar o equipamento nos baús no pé da cama. Isso é o básico, mas não invadam os quartos das pessoas sem permissão. Pode causar problemas. Mas pode ter gente que até goste de fazer amigos assim. Você parece do tipo que lida com todos os tipos de problemas. Só não crie problemas pra mim.”
O estalajadeiro estreitou os olhos para o homem que Ainz havia derrubado, ele estava gemendo no chão.
“Pode deixar. Além disso, vou precisar de um kit básico de aventureiro para nós. Perdemos algumas das nossas coisas e a guilda disse que você prepararia uma para nós se pedíssemos.”
O estalajadeiro olhou para Ainz e Narberal e depois para a algibeira de Ainz.
“Mm, tá. Vai tá pronto até o jantar. Deixa o dinheiro separado.”
“Entendido. Então, Nabe, vamos subir.”
Ainz trouxe Narberal até a velha escadaria. A madeira rangeu sob seus pés enquanto ele se dirigia para o quarto.
♦♦♦
Depois que a silhueta de Ainz desapareceu no segundo andar, os amigos do homem que Ainz derrubou correram e começaram a lançar magia curativa sobre ele. Suas ações pareciam ser a faísca que fez a taverna silenciosa explodir em clamor.
“...Parece que ele é forte mesmo.”
“Pois é, também acho. A força daquele braço é inacreditável, como ele treinou pra ficar assim?”
“Ele deve tá bem confiante pra não carregar armas além daquelas espadas.”
“Droga, outro cara vai subir de ranque mais rápido que a gente.”
As conversas dispersas estavam cheias de admiração, surpresa e medo.
Todos sabiam que Ainz não era uma pessoa comum.
A primeira razão para isso foi seu impressionante equipamento. Armadura de placa completa não era barata, e seria necessário ter muitas aventuras — em outras palavras, ser um aventureiro experiente — para comprá-la. Seria necessário ser pelo menos um placa de prata para acumular capital suficiente para tal proeza. No entanto, algumas pessoas herdaram seus trajes de seus predecessores, ou encontraram em campo de batalha e ruínas abandonadas.
Era por isso que eles queriam avaliar sua habilidade.
Todos aqui eram companheiros e adversários ao mesmo tempo. Todos queriam saber a força de qualquer recém-chegado. As circunstâncias de agora a pouco, tinham ocorrido no passado, repetidas vezes.
Na verdade, todos aqui tinham experimentado esse tipo de coisa no passado. Porém, nenhum deles tinha passado no teste tão facilmente como agora. Em outras palavras, o par recém-chegado.
Ficou claro que eram fortes, sejam como rivais ou aliados. Todos aqui estavam totalmente convencidos disso.
“Então, como devemos tratar aqueles dois?”
“Tentar alguma coisa com aquela belezinha tá fora de questão...”
“Se ao menos a gente pudesse pôr eles no nosso grupo...”
“Não fala bobagem, eles têm que entrar é no nosso grupo.”
“Como será que ele é sem aquele elmo?”
“Eu vou espiar pela parede deles esta noite, talvez eu escute algo.”
“Ele mencionou o homem mais forte da região, Gazef Stronoff, não?”
“Será que é um discípulo do Capitão Guerreiro?”
“Pode ser. Deixe esta tarefa para um ladino de ouvidos aguçados como eu!”
Enquanto a multidão discutia engajadamente sobre o par misterioso, o estalajadeiro foi até um dos aventureiros.
Ela estava segurando a poção que Ainz havia lhe dado.
“Ei, Britta.”
“—Hm? Que foi?”
A mulher — Britta — desviou os olhos da poção vermelha e desinteressadamente olhou para o estalajadeiro.
“Que tipo de poção é essa?”
“Sei lá.”
“...Ei, ei, você também não sabe? Aceitou a poção dele como compensação, o certo é saber o valor dela, não?”
“Como vou saber? Até porque, eu nunca vi uma poção assim. Coroa, você veio aqui porque também ficou curioso, né?”
Britta estava certa.
“E como vai saber se paga o valor da sua poção quebrada? Isso aí pode acabar sendo mais barato do que a que você comprou.”
“Pode ser verdade. É meio que uma aposta, mas estou confiante em ganhar. Isso foi algo que aquele cara da armadura chamativa me deu quando disse o preço da minha poção.”
“Entendo...”
“...Eu nunca vi poção de cura dessa cor. Pode ser um tesouro raro. Se eu tivesse demorado a aceitar ele pagaria em dinheiro, certeza. Bom, foi uma espadada no escuro? De todo modo, vou levar na avaliação amanhã e descobrir o quanto valeu a pena.”
“Oh, nesse caso, eu cobrirei a taxa de avaliação pra você. Na verdade, vô até recomendar um bom lugar pra você visitar.”
“Tem certeza, coroa?”
Britta franziu as sobrancelhas. O estalajadeiro podia ser um bom homem, mas não era um bom samaritano. Ele deve ter algo em mente.
“Ah, não olhe pra mim assim. Eu só quero que você me diga os efeitos dessa poção.”
“É uma troca, então?”
“Hey, é um bom negócio, né não? Além disso, posso recomendar uma herborista realmente boa, tenho boas conexões. Sabe a Lizzie Bareare?”
Os olhos de Britta se arregalaram de surpresa.
E-Rantel era um lugar com muitos mercenários e aventureiros. A venda de armas e outros itens para essas pessoas fez dessa cidade um local bem especializado, e é claro, nesse meio o comércio de poções era bastante movimentado, portanto, E-Rantel tinha mais herboristas do que uma cidade normal.
Em meio a essa competição acirrada, Lizzie Bareare ganhou fama como a melhor herborista da região. Ela poderia fazer as poções mais complexas de todos os herboristas da cidade. Como o estalajadeiro a mencionara pelo nome, Britta não tinha como recusar a oferta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário