Overlord V01-14 (Confronto - Parte 1)


O Chefe do Vilarejo tinha uma casa perto da praça. Ao entrar, uma grande sala de estar dava boas-vindas, com uma cozinha ao lado. Uma velha mesa bamba e várias cadeiras ocupavam o centro da sala.

 

Ainz examinou o interior, ele estava sentado em uma das cadeiras.

 

A luz do sol que brilhava através das janelas iluminava todos os cantos da sala, para que ele pudesse ver claramente dentro. Nem precisou ativar Dark Vision.

 

Ele deu uma olhada na mulher no canto da cozinha e nas ferramentas agrícolas dentro da casa.

 

Não havia muitos produtos manufaturados no local.

 

Ainz pensava que não haveria muita tecnologia aqui, mas então percebeu que seu pensamento foi ingênuo. Ainda assim, ele estava curioso sobre o tipo de ciência que um mundo com magia poderia desenvolver.

 

Ainz passou a mão pela mesa antiga. Suas manoplas de metal não eram pesadas, mas a mesa feita de forma rústica sacudia sob seu peso. A cadeira também rangeu quando Ainz sentou.

 

Uma palavra definia bem, “pobreza”.

 

Ainz inclinou o Cajado na mesa para mantê-lo fora do caminho das pessoas. O Cajado refletia a luz do sol com um tom ainda mais dourado, a luz se dividia ao atravessar as gemas, que agiram como um prisma, esse conjunto de efeitos fazia a antiga casa parecer um tipo de país das maravilhas dos contos de fadas. Ele se lembrou das expressões de surpresa nos rostos do aldeão, o modo como seus olhos se arregalaram e como eles estavam sem palavras.

 

Uma onda de orgulho veio sobre Ainz enquanto os aldeões perguntavam sobre o Cajado que ele e seus companheiros de guilda tinham trabalhado meticulosamente. No entanto, seu prazer foi imediatamente suprimido para níveis normais, o que fez Ainz franzir suas sobrancelhas inexistentes.

 

Para ser honesto, Ainz não gostava dessa passiva automática. Claro que, também era verdade que permitir que suas emoções corressem soltas tornaria difícil resolver os desafios à sua frente. Com isso em mente, Ainz se preparou para a sua próxima tarefa.

 

Ele precisaria negociar o pagamento com o Chefe por resgatar o vilarejo.

 

Obviamente, o objetivo real de Ainz era obter informações, e não dinheiro. No entanto, pedir informações abertamente seria estranho.

 

Estaria tudo bem em um vilarejo pequeno como este, mas uma vez que os lordes locais descobrissem, eles teriam problemas. Quando descobrissem que ele não sabia nada sobre esse mundo, havia uma grande chance de que tentassem usá-lo.

 

Ele estava sendo muito cauteloso sobre isso?

 

Ainz sentiu que isso era como correr em uma rua movimentada — um acidente fatal poderia acontecer a qualquer momento. O acidente fatal neste caso significava encontrar os poderosos seres deste mundo.

 

Força e fraqueza eram dois lados da mesma moeda.

 

Por enquanto, Ainz era mais forte que todos que ele havia encontrado até então. No entanto, isso não garantiu que ele fosse o mais forte dentre todos desse mundo. Além disso, Ainz era um undead, e dada a reação aterrorizada das duas garotas, ele podia imaginar que os undeads não eram muito bem recebidos neste mundo. Ele tinha que estar ciente de que, como a maioria dos humanos o odiaria, eles poderiam atacá-lo. Assim, ele teve que pisar com muito cuidado neste novo território.

 

“Desculpe por manter o senhor esperando.”

 

—O Chefe sentou-se em frente a Ainz. Sua esposa estava atrás dele.

 

Sua pele era bronzeada e coberta de rugas.

 

Seu corpo era muito musculoso e era óbvio que aqueles músculos haviam sido feitos com difícil trabalho diário. Mais da metade de seu cabelo era branco.

 

Embora sua camisa de algodão grosseiramente feita estivesse manchada de sujeira, não cheirava mal.

 

O olhar cansado no rosto, fez Ainz pensar que ele tinha mais de 45 anos, mas era difícil dizer com exatidão.

 

A esposa do chefe tinha mais ou menos a mesma idade do marido.

 

Ela provavelmente havia sido magra e bonita no passado, mas depois de longos anos trabalhando na fazenda, essa beleza não estava em lugar nenhum. Tudo o que restou foram as rugas que cobriam seu rosto.

 

Seus cabelos negros na altura dos ombros estavam despenteados, sua pele parecia sem brilho sob a luz direta do sol.

 

“Aqui, sirva-se.”

 

O Chefe do Vilarejo colocou uma xícara rústica na mesa. Albedo não estava presente, pois estava patrulhando o vilarejo.

 

Ainz levantou a mão, recusando a xícara de água quente e fumegante.

 

Ele não sentia sede, nem podia remover a máscara. No entanto, sentiu que deveria ter recusado mais cedo, levando em conta o quão problemático foi preparar.

 

O problema em questão dizia respeito à água fervida.

 

Primeiro, houve a questão de criar faíscas com uma pedra. Então, ela teve que acender lascas de madeira com essas faíscas. Então, teve que atiçar as faíscas, e quando elas eram grandes o suficiente, teve que as transferir para o fogão. Só então, pôde ferver a água e, durante esse processo, muito tempo se passou.

 

Era a primeira vez que Ainz via a água fervida por um fogo manual, e não pelo uso de uma chaleira elétrica. Ele achou muito interessante. De volta ao seu mundo, ele até tinha fervido água em um fogão a gás, mas não era tão demorado quanto isso.

 

Esta também foi uma boa oportunidade para reunir algumas informações sobre o nível tecnológico deste mundo. Com isso em mente, Ainz falou com o chefe novamente:

 

“Peço desculpas, por ter tido todo esse trabalho para ferver esta água para mim.”

 

“O senhor é muito gentil. Não há necessidade de se desculpar.”

 

O fato de Ainz abaixar a cabeça para eles (ainda que ligeiramente) encheu o Chefe e sua esposa de pavor. Eles não podiam imaginar o mestre do Death Knight curvando a cabeça para ninguém.

 

No entanto, não era estranho para Ainz. Sempre foi uma boa idéia ter uma atitude amigável ao negociar com outra pessoa.

 

É claro, ele poderia simplesmente ter usado 「Charm Person」 para fazê-los falar, seguidos por magias de alteração de memória de alto nível, como ele havia feito com as irmãs. No entanto, esse foi um último recurso, pois gastava muito MP.

 

Ainz lembrou o sentimento de gastar MP; parecia uma fadiga estranha, como se ele tivesse perdido alguma coisa.

 

Apenas alterar algumas dezenas de segundos de suas memórias — até que ele colocou sua máscara e suas manoplas — havia tomado uma quantidade considerável de MP.

 

“Então, vamos direto ao assunto e começar as negociações.”

 

“Sim. Mas antes disso... muito obrigado!”

 

O chefe inclinou-se para Ainz, com a cabeça tão baixa que quase tocou a mesa. Depois disso, sua esposa também se curvou.

 

“Sem a sua ajuda, todos nós estaríamos mortos agora. O senhor tem os nossos mais sinceros agradecimentos!”

 

Ainz ficou bastante surpreso ao receber tal gratidão.

 

Quando lembrou de sua vida no passado, ele nunca tinha sido agradecido assim antes. Não, as irmãs que ele resgatou anteriormente também agiram dessa maneira. Bem, ele nunca salvou a vida de outra pessoa antes, então era de se esperar.

 

Isso era uma relíquia de seu tempo como ser humano — como Suzuki Satoru. Embora ele estivesse um pouco envergonhado com esse agradecimento sincero, ele certamente não detestava isso.

 

“Por favor, levante a cabeça. Como eu disse anteriormente, eu não os ajudei de graça.”

 

“Sabemos disso, mas, ainda assim, a gente quer te agradecer por resgatar não somente nós, mas muitos outros aldeões.”

 

“...Então, me pagar será o suficiente. Venha, vamos discutir isso. O senhor deve ter muitas coisas para fazer, Chefe-dono.”

 

“Nada poderia ser mais importante do que passar tempo com nosso salvador, mas eu entendo.”

 

O Chefe levantou lentamente a cabeça e Ainz ponderou em seu cérebro inexistente.

 

Seu objetivo aqui era obter informações através de conversas, ao invés de magia.

 

—Que problema.

 

Ainda se lembrava dos truques que usara como funcionário de departamento. Quão eficazes eles seriam aqui? Esperançosamente, pelo menos metade deles poderiam ser úteis. Depois de se aceitar a possibilidade de fracasso, Ainz perguntou:

 

“...Vamos ao ponto. Quanto pode me pagar?”

 

“Não ousaríamos enganar nosso salvador. Não sei quantas peças de prata e cobre podemos recolher dos aldeões, mas acredito que podemos reunir pelo menos três mil peças de cobre.”

 

Não tenho idéia do que isso significa.

 

Pensou Ainz.

 

Perguntar diretamente foi um erro. Eu deveria ter tentado uma abordagem diferente. Além disso, para começar, eu nunca fui um bom trabalhador, minhas habilidades profissionais eram muito ruins.

 

Soava como uma grande quantia, mas sem saber o valor do dinheiro, ele não podia dizer se era uma soma apropriada ou não. Ele teve que evitar aceitar uma soma muito alta ou muito baixa, para não revelar sua ignorância.

 

Não, ele deveria ter ficado aliviado por eles não lhe oferecerem “quatro cabeças de gado” ou algo assim.

 

Quando estava prestes a afundar em depressão, seu estado mental imediatamente se acalmou. Ainz silenciosamente elogiou seu corpo undead, e então percebeu mais uma coisa.

 

Em primeiro lugar, as peças de cobre e prata eram as unidades básicas da moeda neste lugar. Segundo, deveria haver outras formas de moeda que fossem mais ou menos valiosas, mas ele não estava confiante de que poderia extrair essa informação.

 

Ele precisava aprender o valor monetário dessas peças de cobre. Sem esse conhecimento, as coisas seriam problemáticas no futuro. No entanto, não saber o valor do dinheiro era bastante suspeito, portanto, queria agir discretamente enquanto aprendia mais sobre esse mundo.

 

Era por isso que ele estava pensando ao máximo, para evitar cometer erros significativos.

 

“Essas pequenas moedas são difíceis de transportar em grandes quantidades. Eu gostaria de algo menor com valor equivalente, será ótimo se puder conseguir.”

 

“Nossas sinceras desculpas. Se pudéssemos pagar em ouro, nós o faríamos. Mas acontece... que nosso vilarejo não usa peças de ouro...”

 

Ainz lutou contra o desejo de suspirar de alívio.

 

A resposta do chefe seguiu o caminho que esperava. Portanto, Momonga pensou muito em como ele continuaria guiando a conversa, pensava tanto que poderia até experimentar enxaquecas.

 

“Que tal isso; eu pretendo comprar os produtos deste vilarejo por um preço justo, então tudo que precisa fazer é me pagar com a moeda que eu usar na negociação.”

 

Ainz secretamente abriu seu inventário sob seu manto e retirou um par de moedas de ouro de YGGDRASIL. Uma das moedas estava decorada pelo rosto de uma mulher, enquanto a outra moeda tinha o rosto de um homem. A primeira, era uma moeda após a grande atualização “Valkyrie’s Downfall”, enquanto a última era uma moeda antes da atualização.

 

Seus valores eram os mesmos, mas significavam coisas diferentes para Ainz.

 

A moeda antiga era uma que seguia Ainz desde que ele começou a jogar YGGDRASIL até formar a guilda Ainz Ooal Gown. As novas moedas foram lançadas com a atualização, quando a Ainz Ooal Gown estava em seu auge. Seu equipamento estava quase completo naquele momento, então essas moedas simplesmente foram para os cofres de seu inventário.

 

Desde que começou como um Magic Caster Skeleton, ele usava suas magias para derrotar monstros que vagavam pelo mundo e ganhou moedas de ouro que flutuavam no ar. Ele sozinho adentrou em dungeons, derrotou os monstros perversos que lá habitavam e ganhou uma enorme pilha de ouro com grande esforço. Depois que os membros da Ainz Ooal Gown completavam uma dungeon, eles vendiam os cristais de dados que coletaram e em troca, recebiam essas peças de ouro, que brilhavam intensamente.

 

Mas Ainz afastou esse assunto para outro momento.

 

Ele colocou a velha moeda e segurou a nova moeda.

 

“...Se eu usasse essa peça de ouro para comprar algo, o quanto eu poderia conseguir?”

 

Ele colocou a moeda de ouro na mesa. Ao mesmo tempo, o Chefe e sua esposa ficaram com os olhos arregalados.

 

“Mas, mas isso é!”

 

“Esta é a moeda usada em uma terra distante, muito distante. Pode ser usada aqui?”

 

“Eu creio que sim... por favor, espere um pouco.”

 

Ainz ficou aliviado quando ouviu que a moeda tinha valor monetário. Então, viu quando o Chefe saiu de seu assento e foi para seu quarto, quando voltou, ele tinha algo que havia visto uma vez durante suas aulas de história.

 

Esse objeto era uma balança com duas bandejas.

 

Depois disso, foi a vez de sua esposa. Ela pegou a moeda de ouro e colocou-a ao lado de um objeto circular, como se estivesse comparando seus tamanhos. Depois que ficou satisfeita, ela colocou a moeda de ouro em uma das bandejas e, na outra, um contrapeso.

 

Pelo que lembrava, esse tipo de coisa era chamado de “massa padronizada”.

 

Enquanto perambulava por suas memórias, Ainz observou as ações da esposa e tentou descobrir o que ela estava tentando fazer. A primeira parte deveria ter sido comparar sua moeda com as peças de ouro deste país e, em seguida, ela estava tentando confirmar seu teor de ouro.

 

Parece que a moeda de ouro era mais pesada e a massa padronizada aumentou. A esposa do chefe colocou outra massa nela e ambos os lados se equilibraram.

 

“Parece ser duas vezes mais pesado do que uma peça de ouro normal... talvez, talvez, se o senhor permitir arranhar a superfície...”

 

“E-Ei! Está sendo rude, mulher! Por favor, aceite minhas mais sinceras desculpas em nome da minha esposa, por dizer coisas tão tolas...”

 

Não era de se admirar. Ela deve ter pensado que era banhado a ouro. Ainz ficou um pouco ofendido, mas não estava zangado.

 

“Prossiga... se verem que é feito de ouro puro, terão que me ressarcir pelo desgaste da moeda, tudo bem?”

 

“Ah, não... Não será necessário. Nós realmente sentimos muito por isso.”

 

A esposa do chefe se curvou em desculpas e devolveu a moeda de ouro.

 

“Sem problemas. Afinal de contas, é sensato verificar a boa-fé de qualquer dinheiro que receba. Ainda assim, o que o senhor acha desta peça de ouro? Não acha que parece uma obra de arte?”

 

“Sim, é muito bonita. Posso perguntar o nome do país de onde veio?”

 

“Não existe mais— Sim, o país não existe mais.”

 

“Entendo...”

 

“...Bem, confirmou por si mesmo que ele pesa o dobro de uma peça de ouro regular, mas considerando o valor artístico, essa peça de ouro deve valer mais. O que o senhor acha?”

 

“É como o senhor diz... mas não somos mercadores e não sabemos o valor da arte...”

 

“Hahaha... bem, tem razão. Mas resumindo, se eu fosse usar isto para comprar algo, valeria cerca de duas peças de ouro da região?”

 

“Sim, com certeza.”

 

“Na verdade, eu tenho mais algumas peças de ouro como esta. O que pode me vender por elas? Claro, eu gostaria de pagar o valor normal de mercado. Eu não me importo se for o mesmo que um vendedor ambulante cobraria. Se quiser, podem ir em frente e inspecione essas moedas. Por favor—”

 

“Ainz Ooal Gown-sama!”

 

O grito repentino do Chefe fez com que o coração inexistente de Ainz agitar-se. A expressão determinada do chefe parecia mais dura e forte do que antes.

 

“...Apenas Ainz é o bastante.”

 

“Ainz-sama, então?”

 

O Chefe pareceu um pouco surpreso com isso, mas logo concordou e continuou falando:

 

“Eu entendo perfeitamente o que o senhor quer dizer, Ainz-sama.”

 


Por um momento, Ainz se perguntou se um ícone gigante de ponto de interrogação aparecera sobre sua cabeça. Parecia haver algum tipo de mal-entendido, mas ele não tinha idéia do que o Chefe estava querendo dizer, então não sabia como responder.

 

“Estou muito ciente de que o senhor não deseja ter seus serviços considerados como algo barato. Eu entendo que o senhor gostaria de pedir uma recompensa apropriadamente digna de sua imagem, Ainz-sama. Certamente, seus serviços valem o preço. Portanto, o que mais o senhor deseja além de três mil moedas de cobre?”

 

Ainz não tinha idéia do que o Chefe estava falando e sua mente era um turbilhão de desordem. Ele estava silenciosamente grato por estar usando uma máscara. A razão pela qual Ainz trouxe a moeda de ouro foi porque queria saber o que poderia comprar e, assim, obter uma compreensão aproximada dos valores de mercado.

 

Como as coisas acabaram assim?

 

O Chefe não deu a Ainz nenhuma oportunidade de interromper e continuou:

 

“Mas como eu disse anteriormente, este vilarejo só pôde reunir três mil moedas de cobre como pagamento. Eu sei que o senhor talvez desconfie de nós, mas jamais nos atreveríamos a esconder a verdade do nosso salvador, Ainz-sama.”

 

A expressão do chefe parecia honesta e determinada. Ele não parecia estar mentindo. Se se revelasse algo diferente, Ainz só poderia amaldiçoar sua incapacidade de ler as pessoas.

 

“Não, tenho certeza de que um grande homem como o senhor não poderia estar contente com essa soma. Talvez se todos reunissem o dinheiro que tem, poderíamos ser capazes de produzir um tanto suficiente pra te satisfazer, Ainz-sama. Mas... perdemos muita mão de obra e, se pagássemos mais de três mil cobres, não conseguiríamos sobreviver ao próximo inverno. O mesmo se aplica aos nossos produtos. Muitos campos terão que ser abandonados porque não temos pessoas pra trabalhar neles. Se a gente vender os poucos suprimentos que temos, nossa vida será muito difícil. Me dói ter que pedir um favor ao nosso salvador, mas se talvez... nós poderíamos... pagar em prestações?”

 

Hm? Isso é uma boa oportunidade, não?

 

Parecia que ele estava perdido em uma densa floresta, e então seu campo de visão se expandiu de repente diante dele. Ainz fingiu pensar sobre isso, e então tudo que ele podia fazer era rezar para que tudo desse certo. Depois de alguns segundos, Ainz finalmente deu sua resposta.

 

“Compreendo. O pagamento não será necessário.”

 

“Eh!? Mas... Mas por quê?”

 

O Chefe e sua esposa olhavam para Ainz, os olhos arregalados e as línguas amarradas. Ainz levantou a mão, indicando que ainda tinha algo a dizer. Ele tinha que considerar o que podia e não podia revelar, e isso era bastante problemático. Ele não sabia se poderia direcioná-los a contar o que queria, mas não tinha escolha a não ser tentar.

 

“...Eu sou um Magic Caster. Eu passei muito tempo pesquisando magias em um lugar chamado Nazarick, e só recentemente saí para ver o mundo.”

 

“Entendo, então é por isso que está vestido assim.”

 

“Ah, mm. Isso mesmo...”

 

Ainz murmurou enquanto tocava à Mask of Envy.

 

O que as pessoas na rua pensariam se vissem Magic Casters andando com roupas estranhas?

 

Ele pensou nas ruas lotadas de Bali como exemplo, assim como não esperava ver algo do tipo em seu mundo. Ainz notou algo que não conseguia entender algo bem peculiar, como os termos do jogo YGGDRASIL eram entendidos e usados aqui.

 

O termo “Magic Caster” refere-se a muitas coisas: Clérigos, Sacerdotes, Druidas, Arcanistas, Conjuradores, Magos, Bardos, Mikos, Talismantes, Sábios e inúmeras outras ramificações relacionadas à magia e ao conhecimento. Em YGGDRASIL, todas elas eram chamadas de “Magic Casters”. Seria surpreendente se a terminologia exata fosse transportada para este mundo.

 

Depois que Ainz viu suas reações, ele respondeu:

 

“...Eu posso ter dito que não queria uma recompensa, mas um magic caster utiliza muitas ferramentas para alcançar seus objetivos, incluindo o medo e o conhecimento. Tudo pode ser uma ferramenta para gerar lucro, mas como eu disse anteriormente, eu estava focado em pesquisa de magias, então meu conhecimento de assuntos locais é um pouco deficiente. Portanto, eu gostaria de aprender sobre o ambiente do senhor e sua esposa. Além disso, espero que não conte a ninguém sobre essa venda de informações. Eu aceito isso como pagamento.”

 

Ninguém seria tão bondoso a ponto de dizer “eu não quero nada”. Pode-se dizer que nada custava mais caro do que algo gratuito.

 

Alguém que salvou a vida de outra pessoa tinha direito a uma recompensa pelo seu trabalho. No entanto, se o salvador dissesse que não queria uma recompensa, qualquer um acharia estranho.

 

Então, a melhor coisa era fazer com que o outro lado sentisse que eles tinham pago de alguma forma, mesmo que fosse de uma forma intangível.

 

Em outras palavras, a melhor solução para a situação atual era acalmar suas suspeitas, fazendo trocar informações com Ainz. Assim ficariam à vontade.

 

O chefe e sua esposa assentiram, com firmeza nos rostos.

 

“Compreendo. Ninguém mais saberá sobre isso.”

 

Ainz discretamente fechou o punho em aprovação. Parece que as habilidades adquiridas no trabalho ainda poderiam ser usadas aqui.

 

“Excelente. Eu não desejo usar magia para validar esse acordo. Eu confiarei em sua boa índole.”

 

Ainz estendeu uma mão couraçada. O chefe olhou fixamente para ele por um momento antes de tomar a situação, e ele agarrou a mão de Ainz.

 

Depois disso, Ainz deu um suspiro de alívio. Parece que agitar as mãos era uma prática conhecida aqui. Teria sido tremendamente deprimente se o Chefe tivesse olhado de forma estupefata para ele.

 

Claro, Ainz não confiava totalmente neles. Afinal, bocas que foram seladas pela promessa de benefícios poderiam ser abertas por benefícios maiores. Se ele tentasse intimidá-los para que ficassem quietos, os caprichos da natureza humana poderiam fazê-los falar. Nenhum dos métodos eram 100% eficazes, então tudo que Ainz podia fazer era arriscar e esperar que a índole do Chefe mantivesse seus lábios fechados. Embora, seria bom mesmo se ele falasse. Essa traição seria simplesmente mais uma alavanca que Ainz poderia usar em futuras negociações com o vilarejo.

 

Dito isso, os instintos de Ainz lhe disseram que não o trairiam. Depois de ver a sincera gratidão do Chefe e sua esposa, ele acreditava que seriam leais.

 

“Então... o senhor pode me falar mais sobre esse lugar?”

♦♦♦

“...Mas como assim!?”

 

“Urh! Aconteceu algo?”

 

“Não, não é nada. Eu estava simplesmente falando comigo mesmo. Não quis te alarmar.”

 

Ainz se recuperou em um instante e imediatamente retornou ao seu estado de espírito calmo. Se seu corpo ainda fosse humano, ele estaria suando baldes agora.

 

O Chefe simplesmente disse:

 

“Se diz...”

 

E não perguntou mais.

 

Talvez o Chefe já tivesse assimilado que “magic casters” são “esquisitões”. De todo modo, isso era melhor para Ainz...

 

“O senhor sente sede? Posso preparar algo pra beber.”

 

“Oh, não, eu não estou com sede. Por favor, não se incomode.”

 

Sua esposa não estava mais na sala, mas sim do lado de fora — ela precisava ajudar em muitas coisas. Apenas Ainz e o Chefe estavam na casa agora.

 

Ainz perguntou pela primeira vez sobre os países vizinhos, e o chefe respondeu com muitos nomes que ele nunca tinha ouvido antes. Embora Ainz estivesse preparado para isso, ele não pôde deixar de ficar surpreso depois de ouvi-los.

 

A princípio, Ainz achava que esse mundo seria projetado de acordo com os princípios fundamentais de YGGDRASIL. Afinal, ele poderia usar a mesma magia de YGGDRASIL aqui, e havia muitas semelhanças com YGGDRASIL. No entanto, nenhum dos nomes que ele ouviu estava relacionado a YGGDRASIL.

 

Os países vizinhos eram o Reino Re-Estize, Império Baharuth e Teocracia Slane. Esses nomes não existiam no contexto de YGGDRASIL, que era inspirada na mitologia nórdica.

 

Ainz sentiu como se o mundo estivesse girando e seu corpo estivesse sacudindo. Ainz segurou a borda da mesa com a mão para manter o equilíbrio. Embora esperasse que este mundo fosse diferente, ele não pôde deixar de se surpreender com isso.

 

O impacto foi maior do que esperava.

 

Esta foi a primeira vez que ele se sentiu tão abalado desde que tornou-se undead.

 

Ainz tentou ao máximo manter a calma e reconsiderou o que ouvira sobre as nações vizinhas e a geografia local.

 

Primeiramente, havia o Reino Re-Estize e o Império Baharuth. Essas nações ficavam em lados opostos de uma cadeia de montanhas, e ao sul daquelas montanhas havia uma floresta extensa, e na borda daquela floresta ficava esse vilarejo, um pouco mais ao sul a Cidade Fortaleza de E-Rantel.

 

As relações entre o Reino e o Império eram ruins, e eles lutavam uma batalha no deserto perto de E-Rantel quase todos os anos.

 

Mais ao extremo sul estava a Teocracia Slane.

 

A melhor maneira de descrever a orientação desses países era desenhar um círculo e depois dividi-lo com um “”. Parecia confuso, mas era muito mais fácil descrever as coisas dessa maneira. Na esquerda estava o Reino Re-Estize, na direita o Império Baharuth, e abaixo deles estava a Teocracia Slane. Havia outros países, mas o Chefe só sabia desses três.

 

O Chefe não tinha certeza de onde exatamente este vilarejo situava-se entre os três.

 

Em outras palavras—

 

“...Que idiotice a minha.”

 

Os cavaleiros de agora a pouco estavam vestindo uma armadura estampada com a insígnia do Império Baharuth, então o chefe acreditava que eles eram do Império Baharuth. Mas essa área também fazia fronteira com a Teocracia Slane, então também poderiam ser cavaleiros daquele país, só que disfarçados.

 

Libertar todos foi um erro. Ele deveria ter mantido um para interrogatório, mas era tarde demais para isso agora.

 

Se este foi trabalho da Teocracia Slane, então ele provavelmente deveria fazer algo do lado do Império. Do lado do Reino, ele deveria ter acumulado gratidão suficiente por resgatar o vilarejo, então as coisas deveriam estar bem por enquanto.

 

Ainz imergiu-se em pensamentos.

 

Ele foi o único a vir parar neste mundo?

 

Impossível. Havia uma grande chance de outros jogadores terem vindo aqui também. Talvez Herohero estivesse aqui também. Ele precisava pensar sobre o que aconteceria se encontrasse outros jogadores.

 

Se outros jogadores viessem a este mundo, eles provavelmente se reuniriam, considerando a natureza do povo japonês. Quando chegasse a hora, ele teria que fazer quase qualquer coisa para se misturar. Ele poderia dar qualquer coisa, desde que não envolvesse a Ainz Ooal Gown.

 

O problema era o que aconteceria se o outro lado o considerasse um obstáculo. A possibilidade era pequena, mas não podia ser descartada.

 

Desde sempre a guilda Ainz Ooal Gown foi vista como uma alcova de vilões, por conta do PKing, e assim se tornaram uma guilda muito odiada. Ele não podia ter certeza de que essa imagem negativa era a única coisa que resgatara. Até onde ele sabia, os outros jogadores poderiam querer se vingar dele por um senso de justiça ou raiva contida.

 

Para evitar que outros declarassem vingança contra ele, ele precisava se abster de fazer qualquer coisa que antagonizasse as pessoas ao redor. Por exemplo, massacrar a população local — especialmente civis inocentes — poderia enfurecer os jogadores que ainda não perderam o viés de humanidade. Claro, seria uma questão diferente se houvesse uma razão que os satisfaria, como matar os cavaleiros que tentaram massacrar o vilarejo.

 

De todo modo, seria melhor se ações futuras fossem tomadas por algum motivo bem justificável. Isso também significava que ele teria que fazer coisas de que não gostava, mas quanto a isso, nada poderia ser feito.

 

Se as pessoas que ele encontrasse tivessem ódio contra a Ainz Ooal Gown, então o combate seria inevitável. Para esse fim, ele deveria elaborar um plano e contramedidas se essa situação ocorresse.

 

Dada a força atual das defesas da Grande Tumba de Nazarick, eles poderiam facilmente dominar cerca de 30 jogadores de níveis 100. Além disso, eles poderiam usar itens World-Class em sua defesa, por isso era uma fortaleza quase inexpugnável. Eles provavelmente seriam capazes de repelir invasores como no passado.

 

No entanto, era fácil ver quão terrível a situação poderia ser sem reforços. Além disso, o trunfo da Ainz Ooal Gown — seus itens World-Class — drenaria os níveis de Ainz toda vez que ele liberasse todo o seu poder. Se fossem atacados sucessivamente, chegaria a hora em que os Itens World-Class ficariam inutilizáveis.

 

Ainz estava muito ciente que em um cenário de guerra como o que havia em mente eram propensos ao viés do seu ponto de vista. No entanto, Ainz não era mais uma criança, e ele sempre considerou o pior cenário possível antes de tomar qualquer ação. Era um pensamento básico de como evitar problemas antes que acontecessem.

 

Se ele apenas quisesse evitar tudo, ele poderia simplesmente viver nas montanhas como um animal selvagem. No entanto, o poder que possuía e o poderoso nome que assumira o impediram de fazer isso.

 

Se ele quisesse coexistir pacificamente com o mundo, precisaria lidar com os problemas quando surgissem.

 

Como tal, o combate e a expansão do poderio militar se tornariam um tópico muito importante no futuro. Ele precisava coletar informações sobre este mundo, bem como notícias sobre outros jogadores.

 

“...Isso deve servir.”

 

“O que aconteceu?”

 

“Não é nada. Eu simplesmente me distanciei porque as coisas não eram como eu esperava. Então, pode me falar sobre outra coisa?”

 

“Ah, sim, claro.”

 

O Chefe do Vilarejo começou a falar sobre monstros.

 

Muito parecido com YGGDRASIL, este mundo tinha monstros também. A floresta próxima estava cheia de monstros, e um deles era conhecido como o “Sábio Rei da Floresta”. Havia também Dwarfs, todos os tipos de Elfos, Goblins, Orcs, Ogros e outros. Aparentemente, alguns dos demi-humanos até construíram sua própria nação.

 

Havia pessoas chamadas “Aventureiros” que expulsavam monstros e contavam com muitos magic casters entre eles. Aparentemente, esses aventureiros tinham suas próprias guildas situadas nas grandes cidades.

 

Além disso, ele também aprendeu sobre a Cidade Fortaleza de E-Rantel.

 

Segundo o Chefe, E-Rantel era a maior cidade da região, embora não soubesse exatamente o tamanho da população. Esse parecia ser o melhor lugar para coletar informações.

 

Embora as palavras do Chefe tenham sido úteis, ainda havia muitos detalhes ainda não esclarecidos. Portanto, seria melhor enviar alguém para descobrir, em vez de fazer mais perguntas ao Chefe.

 

E por fim, havia a questão da linguagem. Foi realmente surpreendente que eles entendessem o japonês nesse novo mundo. Como resultado, Ainz olhou atentamente para a boca do Chefe e descobriu que, na verdade, ele não falava japonês. As palavras ditas através dos movimentos labiais eram totalmente diferentes do idioma japonês.

 

Depois disso, ele fez mais algumas experiências.

 

Sua conclusão foi que alguém havia alimentado as pessoas deste mundo com algum tipo de Tradução Konnyaku. No entanto, ele não sabia quem havia os alimentado com isso.

 

A linguagem deste mundo era traduzida antes que a outra parte a ouvisse.

 

Como podia entender o que a outra parte dizia, então seria ele capaz de se comunicar com formas de vida não humanas, como, por exemplo, um cachorro ou um gato? A questão agora era quem havia feito isso. Além disso, o Chefe não achava essa situação estranha.

 

Parecia perfeitamente natural para ele.

 

—Em outras palavras, esse era um princípio básico do mundo. Então, novamente, quando se pensava calmamente, este era um mundo mágico, que poderia ser executado em preceitos completamente diferentes do mundo em que Ainz nascera.

 

Parece que o conhecimento básico e os fatos que ele aprendeu em sua vida anterior não eram mais aplicáveis agora. Este era um problema grave.

 

Se ele era ignorante sobre este mundo, havia uma chance de ele cometer um erro fatal. “Ignorância” era sinônimo de “desastre”, neste caso.

 

Neste momento, Ainz não sabia absolutamente nada. Ele teria que resolver este problema rapidamente, mas não tinha idéia de por onde começar. Será que teria que sequestrar alguém e fazê-lo abrir o bico? Essa não é uma opção muito viável.

 

Sendo esse o caso, havia apenas uma alternativa para ele.

 

“...Parece que vou precisar morar em uma cidade por um tempo.”

 

Ele teria que observar e imitar muitas coisas para aprender sobre o mundo. Ele também precisava entender a magia deste mundo e muitas outras coisas a respeito disso.

 

Enquanto pensava, ouviu passos do lado de fora da frágil porta de madeira. Houve um grande atraso entre os sons dos passos, o que significava que, quem quer que fosse, não estava avançando rapidamente. Aqueles eram os sons de passos constantes e pesados de um homem crescido.

 

Uma batida veio da porta, Ainz se virou. O Chefe não pôde deixar de olhar para o rosto de Ainz. Ele não ousou agir por vontade própria, porque ainda estava explicando as coisas para seu salvador, como pagamento por salvá-lo e todos os outros no vilarejo.

 

“Pode ir atender, não me importo. Eu estava pretendendo fazer uma pausa. Não há problema algum se o senhor se ausentar.”

 

“Eu sinto muito sobre isso.”

 

Disse o Chefe se curvando pedindo desculpas. Ele se dirigiu para a porta e quando a abriu, apareceu um aldeão. Ele olhou primeiro para o Chefe, depois para Ainz, e disse:

 

“Chefe, desculpe por te interromper enquanto conversa com nosso convidado, mas eles tão prontos pro enterro...”

 

“Oh...”

 

O Chefe olhou para Ainz, seus olhos implorando por sua aprovação.

 

“Está bem. Não há necessidade de se preocupar comigo.”

 

“Muito obrigado. Diga aos outros que daqui a pouco eu chego lá.”

Yokai POP
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Dividindo com o mundo as histórias que eu gosto.

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