Overlord V02-03 (Os dois aventureiros - Parte3)


Sentindo algo como uma cor no vento, Britta fungou várias vezes, como um cachorro.

Ela não estava enganada — o ar continha um aroma esverdeado. Este odor vinha de drogas misteriosas e plantas esmagadas. O cheiro disse à Britta que ela estava no seu destino.

Britta continuou em frente, para um lugar onde o cheiro era mais forte do que antes. Espreitando para a esquerda e para a direita, ela andou até estar na frente de uma grande casa.

Esta casa era diferente das outras ao redor, que foram projetadas com uma área de loja na frente e uma área de trabalho na parte de trás. Parecia ter sido construída do zero, algo que lembrava uma oficina.

Ela sabia que chegara; a placa de madeira pendurada acima da porta indicava isso.

O sino fixado no topo da porta tocou surpreendentemente alto quando ela abriu a porta da frente.

Depois que entrou, ela se viu em algo que parecia uma sala de hóspedes. De frente para ela, havia dois bancos no meio da sala, armários de livros nas paredes e plantas ornamentais decoravam os cantos.

Quando adentrou, uma voz a cumprimentou:

“Bem-vinda!”

Era uma voz masculina, embora parecesse jovem demais para pertencer a um homem.

Olhando em volta ela viu um adolescente de pé diante dela, vestido com um conjunto surrado de macacões de trabalho que estavam manchados com sumos de plantas esmagadas.

Seu cabelo loiro cobria metade do rosto, por isso era difícil adivinhar sua idade, mas dada a sua altura e voz, ele deveria estar na puberdade.

Embora ele fosse adolescente, Britta podia adivinhar seu nome. Além da fama de sua avó, ele havia se tornado uma das poucas pessoas notáveis em E-Rantel em virtude de seu Talento de nascença.

“...Nfirea Bareare-san?”

“Sim, sou eu.”

O menino — Nfirea — assentiu e perguntou:

“Posso saber o que deseja?”

“Ah, sim. Espere um pouco.”

Britta pegou o pedaço de papel dobrado que o estalajadeiro a tinha passado e o deu para o menino.

Ao receber o pedaço de papel, Nfirea o abriu e leu.

“Entendo... então é por isso. Posso ver a poção?”

Britta pegou a poção e entregou a Nfirea, que a trouxe tão perto do rosto que seu cabelo a cobriu.

A atmosfera mudou.

Nfirea afastou o cabelo, revelando um rosto bonito, que certamente partiria corações de muitas garotas.

No entanto, naquele rosto jovial havia um par de olhos afiados. Era difícil imaginar que alguém que falava e agia como ele, pudesse ter olhos assim. Aqueles olhos brilharam de excitação. Nfirea sacudiu o frasco de poção várias vezes e assentiu.

“Perdão, mas não é conveniente conversar isso aqui. Você poderia me seguir para o interior da loja?”

Britta concordou e, sob a orientação de Nfirea ela logo chegou a um ambiente bagunçado. Assim ela pensava, dado a carência de conhecimento na área herbalistica.

Na mesa havia frascos de fundo redondo, tubos de ensaio, equipamentos de destilação, almofarizes, funis, béqueres, lamparinas a álcool, balanças, uma panela de aparência bizarra e vários outros itens. As prateleiras das paredes estavam cheias de ervas misteriosas e amostras de minerais.

Um odor acre estava estagnado no ar. Parecia potencialmente perigoso para o corpo de alguém.

A pessoa que já estava dentro do cômodo encarou as duas pessoas que haviam entrado.

Ela era uma mulher muito velha e o rosto e as mãos estavam muito enrugados. O cabelo dela, que chegava até as sobrancelhas, era branco puro. Suas roupas de trabalho estavam manchadas com mais resíduos verdes do que as de Nfirea e ela cheirava a grama.

Nfirea, que acabara de entrar, chamou a velha senhora:

“Obaa-chan!”

“O que é? Que foi? Eu posso te ouvir mesmo se não gritar. Meus ouvidos são bons e você sabe disso.”

Nfirea só tinha uma avó, conhecida como a maior herborista da cidade, Lizzie Bareare.

“Aqui, dê uma olhada nisso.”

Lizzie aceitou a poção que Nfirea lhe ofereceu. Enquanto ela a estudava, seu olhar se tornou tão focado e aguçado que chegou a perturbar Britta. A senhora parecia uma veterana de muitas batalhas.

Nisso ela não estava errada. Herboristas precisavam usar magia ao fazer suas poções e remédios e, quanto mais famoso o herborista, maior o nível de magia que eles poderiam usar. Portanto, a maior herborista de E-Rantel, Lizzie Bareare, era uma combatente muito melhor que Britta.

“Esta poção... que você trouxe aqui... Uma poção lendária? Não, será que é... o Sangue de Deus? De que lugar veio essa poção?”

“Eh?”

Os olhos de Britta se arregalaram ao ouvir a indagação.

“Impossível... esta poção. Onde pegou isso? Em alguma ruína?”


“Eh? Ah, não, é quê...”

“Não precisa dessa timidez toda. Apenas me dê uma resposta direta— onde você pegou isso? Roubou de algum lugar? Hm?”

Os ombros de Britta estremeceram de surpresa. Ela não fizera nada de errado, mas sentia que estava sendo repreendida.

“...Obaa-chan, não assuste ela assim.”

“...O que está dizendo, Nfirea? Eu não a assustei.”

Não, você me assustou sim.

Britta queria dizer isso, mas em vez disso ela engoliu em seco e simplesmente contou à Lizzie a história completa sobre a poção:

“Ah, er, alguém me deu como pagamento.”

“...Hah?”

Os olhos de Lizzie ficaram ainda mais severos.

“Espere um minuto, Obaa-chan. Britta-san, poderia me dizer quem deu a você? E o porquê isso foi dado a você?”

Com a ajuda de Nfirea, Britta explicou simplesmente que recebera a poção de um homem misterioso com armadura completa. Quando Lizzie ouviu, mais rugas acentuaram seu rosto enrugado.

“...Você sabia que existem três tipos de poções?”

Sem esperar pela resposta de Britta, Lizzie continuou:

“O primeiro tipo, são poções feitas apenas de ervas. Essas poções agem lentamente e tudo o que elas podem fazer é melhorar a recuperação natural de uma pessoa. Não são muito eficazes, mas tem um preço bem baixo. O segundo tipo, são poções feitas com ervas e magia. Essas poções entram em vigor mais rápido que o primeiro tipo, mas ainda precisam de algum tempo para fazer efeito. A maioria dos aventureiros usa essas poções para se recuperar depois de uma batalha. O terceiro tipo, são poções feitas exclusivamente de magia. Essencialmente, uma infusão de magia em uma solução alquímica, tem efeito instantâneo. Poções assim são funcionalmente iguais a uma magia, por isso são correspondentemente mais caras. Então, qual destes três tipos essa poção pertence? Não consigo ver nenhum vestígio de resíduo de ervas, então deve ser uma poção de magia pura, mas...”

Lizzie pegou uma garrafa de poção cheia de um líquido azul e segurou-a diante dos olhos de Britta.

“Esta é uma poção de cura básica. As cores são diferentes, vê? As poções de recuperação ficam azuis durante a fabricação, mas a sua é vermelha. Em outras palavras, o processo pelo qual essa poção foi feita é completamente diferente do modo como as poções normais são feitas. Ou seja, sua poção é bem rara e, por tudo o que sabemos, pode acabar revolucionando os métodos modernos de criação de poções... bem, perceber isso leva tempo.”

Depois de dizer isso, Lizzie lançou duas magias:

Appraisal Magic Item, Detect Enchant.”

Depois de lançar as duas magias na poção, um olhar de surpresa e loucura apareceu no rosto de Lizzie.

“HuHu. FUAHAHA!”

De repente, o riso enlouquecido ecoou pela sala estreita. Lizzie levantou lentamente a cabeça, com um sorriso terrivelmente louco no rosto. Britta ficou tão assustada com a súbita mudança de Lizzie que não só não pôde falar, como também não conseguiu se mexer.

“HuHuku! Então essa poção é isso!? Olhe atentamente para esta poção, Nfirea! Esta é a forma perfeita de todas as poções! Está bem aqui! Nós — herboristas, alquimistas, todos no negócio de fazer poções — estudamos há tanto tempo e acumulamos tanta experiência, mas ainda não conseguimos alcançar essa forma idealizada!”

As bochechas de Lizzie estavam vermelhas de entusiasmo e ela estava bufando e ofegante. No entanto, manteve sua mão firme enquanto segurava a garrafa de poção e trouxe-a diante dos olhos de Nfirea.

“Poções se deterioram com o tempo, estou certa ou errada!?”

“Certa, pois isso é senso comum.”

Em contraste com a excitação de Lizzie, Nfirea estava calmo. No entanto, Britta podia sentir indícios de entusiasmo dentro dele.

Ela não tinha idéia do porquê eles estavam tão entusiasmados com isso. Ela sentiu como se tivesse sido arrastada para uma tempestade que abalou os céus e a terra. Pensar que ela tinha trazido uma poção aqui que poderia colocar um olhar tão animado no rosto da maior herborista de E-Rantel.

“Poções mágicas puras são feitas de soluções alquímicas. Essas soluções são refinadas a partir de uma base mineral, por isso, é natural que a qualidade da solução seja degradada com o tempo. Consequentemente, é preciso conjurar a magia 「Preservation」 nelas.”

Lizzie fez uma pausa e depois falou de novo.

“Pelo menos sempre havia sido assim.”

Britta pareceu entender um pouco do que Lizzie estava dizendo. Ela olhou para a solução vermelha, com os olhos arregalados de surpresa.

“Este frasco! Esta poção! Este frasco de poção! Não se deteriora mesmo sem a magia de preservação! Em outras palavras, é uma poção perfeita! Ninguém fez nada assim até hoje! De acordo com as antigas lendas, a poção de cura original foi feita a partir do sangue dos deuses.”

Lizzie sacudiu o frasco que estava segurando e o líquido vermelho brilhante girou dentro do vidro.

“Claro, isso são apenas lendas. Costumava ser uma piada entre herboristas que os deuses tinham sangue azul.”

Depois de outra breve pausa, Lizzie olhou para o frasco de poção que segurava na mão, que começou a tremer de excitação.

“Esta poção pode muito bem ser o verdadeiro Sangue de Deus!”

Nfirea continuou dando tapinhas nas costas de Lizzie enquanto ela ofegava pesadamente. Britta ficou muda de surpresa. O silêncio entre eles foi quebrado por Lizzie:

“...Você deve ter vindo aqui para aprender sobre os efeitos desta poção, correto? Esta poção é equivalente a magia de cura de segundo nível. Deve valer cerca de oito peças de ouro, mas dado a sua raridade pode valer ainda mais. Com isso em mente, você pode considerar algo caro o suficiente para que as pessoas a matem por isso.”

O corpo de Britta tremia incontrolavelmente.

Para uma aventureira placa de ferro como Britta, o valor base da poção por si só já era muito alto, para não falar do valor agregado. Lizzie tinha um olhar afiado, parecia que estava procurando alguma oportunidade para fazer um bom negócio.

Mesmo assim, Britta tinha suas dúvidas. Por que aquele homem em armadura completa lhe daria uma poção dessas tão facilmente? Que tipo de homem estava sob aquela armadura?

Enquanto inúmeras dúvidas apareciam em seu coração, Lizzie perguntou:

“Que tal vender para mim? Vou pagar muito bem. Que tal trinta e duas moedas de ouro?”

Os olhos de Britta ficaram ainda maiores.

O preço que Lizzie acabara de citar era uma quantia impressionante. Se usado de modo frugal, seria o suficiente para uma família de três pessoas viver por três anos.

Britta estava confusa. Ela sabia que a poção era incrivelmente valiosa. Então, vender por 32 peças de ouro seria a coisa certa a se fazer? Parecia improvável que ela fosse capaz de colocar as mãos em outra poção como essa novamente.

Mas se recusasse, ela sairia daqui com vida?

Depois de ver o rosto hesitante de Britta, Lizzie assentiu a cabeça e propôs outro acordo—

Yokai POP
Yokai POP

Dividindo com o mundo as histórias que eu gosto.

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