Demiurge atravessou o 9º Andar da Grande Tumba de Nazarick. As solas duras de seus sapatos de couro bateram ruidosamente contra o chão, e os ecos se desvaneceram no silêncio. Muitos vassalos foram designados para manter a segurança, mas não prejudicaram a atmosfera mítica deste lugar.
De repente, Demiurge olhou em volta e sorriu.
“...Verdadeiramente magnífico.”
O objeto de sua admiração foi a totalidade do 9º Andar. Era um lugar que complementava os 41 Seres Supremos, as entidades para as quais Demiurge abandonaria tudo e prometeria sua maior lealdade. Portanto, Demiurge amava e apreciava tudo aqui.
A alegria enchia o coração de Demiurge toda vez que ele caminhava por esse lugar, reforçando ainda mais sua devoção aos seus criadores. Não era apenas Demiurge quem se sentia assim; até mesmo os palhaços, músicos e outros adeptos da musicalidade ficavam maravilhados em silêncio ao passar por este Andar, e se esforçavam ao máximo para preservar sua quietude.
Qualquer um que não estivesse encantado com tamanha magnificência, não era suficientemente leal aos 41 Seres Supremos e certamente possuiria “Tendências Desleais”.
Enquanto esses pensamentos passaram pela mente de Demiurge, ele virou uma esquina. Seu destino estava diante de seus olhos, o quarto de seu superior inquestionável, o Supremo Governante de Nazarick, o último e único que permaneceu com eles, Ainz Ooal Gown.
Ao se aproximar da porta do quarto, ele viu vários servos saindo do local.
Essas pessoas notaram Demiurge e esperaram cortesmente que se aproximasse. Um deles estava vestido como um mordomo, mas além de suas luvas brancas, estava vestido inteiramente de preto. Parecia mais um conjunto de roupas de mordomo misturado com uniforme de combate.
Ele era um dos 10 servos masculinos de Nazarick, mas nem Demiurge sabia diferenciá-los. Isso porque todos eles usavam máscaras que cobriam o rosto inteiro, algo entre o medieval e o masoquismo, e só se comunicavam em ruídos estranhos.
Além disso, havia um ser a frente desses servos. A imagem mental ridícula de um homem nu de gravata apareceu na mente de Demiurge.
Mas era um pinguim. Era a própria imagem de um pinguim usando uma gravata preta.
“Há quanto tempo, Mordomo Assistente-kun.”
Ao ouvir a calorosa e gentil saudação de Demiurge, o pinguim respondeu com um sorriso — provavelmente — radiante:
“De fato, já faz um tempo, Demiurge-sama.”
Ele então se curvou profundamente.
Este não era um simples pinguim, mas o Mordomo Assistente da Grande Tumba de Nazarick. Ele era um ser heteromórfico conhecido como “Birdman” e se chamava Eclair Ecleir Eicler.
Por ser um Birdman assim como Peroroncino dos 41 Seres Supremos, ele deveria ter uma cabeça e asas bestiais e seus membros deveriam ter características aviárias. No entanto, por alguma razão, ele parecia um pinguim. Ainda assim, Demiurge não tinha ressalvas sobre sua aparência.
A razão para isso era simples, ele foi criado por um dos Seres Supremos.
“Albedo está dentro do quarto?”
“Sim, Albedo-sama está.”
Albedo ficava no comando de Nazarick enquanto Ainz estava fora. Também era de conhecimento geral que ela não conduzia seus negócios em seu próprio quarto, mas neste quarto. Claro, todas suas ações foram tomadas com a aprovação de Ainz, então a única a expressar objeções a esse arranjo foi Shalltear Bloodfallen, que estava no exterior a negócios.
Demiurge uma vez sussurrou para Albedo: “Uma boa esposa não deveria esperar por seu marido em casa e cuidar da casa em sua ausência?” Portanto, ele foi completamente incapaz de refutá-la quando ela o respondeu: “O que há de errado com uma esposa esperar no quarto pertencente a seu marido?”
Ele acenou para Eclair e então perguntou:
“É raro vê-lo por aqui, Eclair-kun. Você não está atribuído aos quartos de hóspedes?”
“Quando o Sebas-sama não está por perto, eu preciso trabalhar arduamente para compensar o déficit. Na verdade, vim aqui justamente para discutir os pontos mais delicados de minhas tarefas com a Albedo-sama.”
“Certamente. Como ele não está por perto, o Nono Andar da Grande Tumba de Nazarick é agora de sua responsabilidade.”
“Exatamente. Eu tenho que trabalhar arduamente agora, então eu poderei um dia governar a Grande Tumba de Nazarick.”
O sorriso no rosto de Demiurge não mudou, apesar da declaração estranha de Eclair.
Era amplamente sabido que Eclair ansiava pelo trono da Grande Tumba de Nazarick. Ele era uma criação dos Seres Supremos, então estava fora de questão. Claro, se a ordem fosse dada, Demiurge o eliminaria sem piedade, mas até então, ele não tinha objeções.
“De fato. Trabalhe com afinco para tal. Por falar nisso, o que pretende fazer a seguir?”
“Limpeza, é claro. Que outro trabalho há para fazer? Ninguém limpa melhor do que eu! Pode-se comer nos banheiros que eu limpo.”
Demiurge assentiu em satisfação ao ouvir a resposta confiante de Eclair.
“Excelente. Seu trabalho é muito importante. Uma mancha neste chão é um insulto aos Seres Supremos.”
Enquanto assentia, Demiurge então fez outra pergunta:
“Eu sei que o seu trabalho é muito importante, mas quem será o responsável por este Andar enquanto o Sebas estiver fora?”
“A Empregada Chefe, Pestonya. Administrar este Andar não é nada comparado a limpá-lo.”
“Perfeito... então os vassalos feitos pelos Seres Supremos já foram designados para seus deveres... pensando bem, não é difícil cumprir suas obrigações com essas suas mãos de pinguins?”
“Meu talento está em superar a falta de jeito dessas mãos e limpar a casa.”
Eclair confiantemente respondeu, com o peito estufado. Então, em um tom um tanto infeliz, ele continuou:
“Pense bem no que diz, isso não é algo que um ser como o senhor — cuja sabedoria é apenas a segunda à frente da minha própria — diria, Demiurge-sama.”
Eclair pegou um pente do mordomo atrás dele e começou a enfeitar as penas douradas nas laterais da cabeça.
“Eu não sou um mero pinguim, mas um pinguim rockhopper feito pela Ankoro Mocchi Mochi-sama dos Seres Supremos. Por favor, não me compare a um mero animal. Além disso, estas não são minhas mãos — mas asas.”
“Parece que eu fui rude.”
Depois de ver Demiurge abaixar a cabeça em desculpas, Eclair sinalizou que ele não tinha levado isso a sério. Então, ordenou o servo atrás dele:
“Me carregue.”
“Ngiiiiiih!”
O servo colocou Eclair debaixo do braço.
A caminhada usual de Eclair era uma série de saltos curtos, o que é consideravelmente lento em alguns aspectos. Portanto, ele era tipicamente carregado por um servo dessa maneira.
“Então, aqui me despeço, Demiurge-sama.”
“Uhum, adeus. Eclair-kun.”
Depois de olhar brevemente para o Mordomo Assistente sendo mantido sob o braço de um servo como uma boneca, Demiurge bateu suavemente na porta do quarto:
“Aqui é Demiurge. Perdoe a intrusão.”
Ele foi extremamente educado, apesar da ausência do dono do quarto. Isso porque, para Demiurge, o quarto em si era um lugar a ser respeitado.
Demiurge entrou no quarto, que deveria estar vazio. Ele olhou em volta e não viu Albedo em lugar algum, após suspirar suavemente, abriu outro conjunto de portas e prosseguiu mais a fundo.
Os aposentos dos 41 Seres Supremos foram inspirados em suítes reais e contavam com um vasto banheiro, um balcão de bar, uma sala de estar com um piano de cauda, um quarto principal, quartos de hóspedes, uma cozinha dedicada, um closet e assim por diante.
Demiurge avançou para o quarto sem hesitar um segundo, bateu na porta, e entrou sem esperar por uma resposta. Havia apenas uma única cama dentro, a cama king-size era adornada com um dossel elegante. Havia uma grande protuberância, ligeiramente maior que o tamanho de um humano, e estava se contorcendo.
“Albedo.”
Incapaz de suportar Demiurge chamando por ela, uma beleza Classe Mundial revelou seu rosto debaixo dos lençóis. Sua pele era um trecho ininterrupto de suavidade sedosa até os ombros, então ela provavelmente estava nua sob os lençóis. Talvez fosse porque ela se enterrou naqueles lençóis, mas havia um leve rubor de excitação em suas bochechas.
“...Que tipo de bruxaria que pensa estar fazendo aí?”
“Eu quero que o Ainz-sama seja envolvido em minha fragrância quando ele retornar.”
Parecia algum tipo de ritual do reino animal para marcar território.
Demiurge ficou mudo. Tudo o que ele pôde fazer foi observar silenciosamente a NPC de maior hierarquia criada pelos 41 Seres Supremos, a Supervisora Guardiã da Grande Tumba de Nazarick, neste estado. Então, ele balançou a cabeça cansadamente.
Ele não disse: “Ainz-sama é undead, ele provavelmente não dormirá em uma cama”, ou “Mesmo que durma nesta cama, os lençóis serão trocados constantemente”, ou algo assim. Se ela estava satisfeita com isso, então que assim seja.
“Sugiro que não exagere muito.”
“...Não sei onde viu algum exagero meu, mas tudo bem. Não é mesmo, Ainz-sama?”
A pessoa deitada na cama ao lado de Albedo de repente revelou seu rosto. Por sua vez, Demiurge ficou tão chocado que não teve palavras para dizer.
Por um momento, ele pensou que era Ainz Ooal Gown, mas não era grande e nem imponente o suficiente.
“Isso é... um dakimakura... quem fez isso?”
“Eu fiz.”
Os olhos quase fechados de Demiurge se arregalaram quando ouviu a pronta resposta de Albedo. Ele não esperava que ela possuísse tais habilidades.
“Seja limpar, lavar roupas ou costurar, eu possuo todas essas habilidades a nível profissional.”
Exaltada pela surpresa de Demiurge, Albedo continuou se exibindo em um tom de autossatisfação:
“Eu já fiz meias e roupas para o nosso futuro bebê, o suficiente até os cinco anos de idade.”
O sorriso de orelha a orelha no rosto de Albedo e sua risada kufufufu deixaram Demiurge se sentindo um pouco impotente. Ele considerou simplesmente deixá-la aqui e partir imediatamente.
“Não importa se for um menino ou uma menina... ah! E se a criança for hermafrodita, ou assexuada...?”
Demiurge ficou sem palavras. Tudo o que pôde fazer foi assistir aos murmúrios de Albedo.
Era verdade que Albedo se destacava na administração da Grande Tumba de Nazarick e, nesse aspecto, era muito superior a Demiurge, no entanto, não era tão talentosa em termos de defesa e administração militar, então precisava da ajuda de Demiurge nesse campo.
No momento não havia inimigos conhecidos, nem detectaram ameaças nas redondezas. Diante desse fato, Demiurge se forçou a engolir sua inquietação. Além disso, seu mestre ordenou que ele deixasse a Tumba, e isso era uma ordem que ele não poderia ignorar.
“Então, de acordo com as ordens do Ainz-sama, eu partirei daqui a pouco. Sendo esse o caso, os únicos Guardiões que permanecerão em Nazarick serão você e o Cocytus. Não há nada que precise ser dito, mas espero que fique atenta.”
“Então, depois da Aura, Mare, Sebas e Shalltear, é a sua vez? Mm, não se preocupe. Eu terei minhas irmãs me ajudando se for uma emergência. Eu também mobilizarei as Pleiades. Elas devem ser suficientes para aguentar até que todos retornem.”
“...Acredito que sua irmã não pode ser ativada sem a permissão do Ainz-sama, mesmo em uma emergência. O mesmo se aplica às Pleiades. Eu acredito que duas delas já estão em missões, tenha em mente que não será capaz de usar todas. Talvez deva levar o Victim para um Andar mais alto, dependendo das circunstâncias, o que acha?”
“Ainda assim, isso poderia ser ir longe demais... preparações foram feitas em caso de tal situação. Se algo der errado, espero que retorne o mais rápido possível. Falando nisso, como pretende lidar com os sobreviventes da Escritura da Luz Solar? Ainz-sama o concedeu o direito de fazer o que bem entender, estou errada? Se quiser, posso cuidar disso também, mas não tenho idéia se planeja algo a mais com eles...”
“Ah, você quer dizer, eles? Por ordem do Ainz-sama, eles estão nos ajudando com experimentos.”
Demiurge parecia muito feliz, mas Albedo enrugou às sobrancelhas de forma elegante.
“Primeiro são os testes de cura mágica. Quando cortamos um braço e curamos a ferida com magia, a mão decepada desaparece. Agora me diga, se tivéssemos comido o braço decepado e depois curássemos a ferida, os nutrientes derivados do braço desapareceriam? Se repetíssemos isso de novo e de novo, as pessoas que comeram os braços morreriam de fome?”
“Ah — Interessante.”
“Além disso, permitimos que eles votem em quem deveria se tornar a comida dos outros, e quem deveria ser aquele que cortaria os membros da comida com um machado rombudo. Nós fazemos isso por um voto registrado.”
“Existe uma razão para isso?”
“Mas é claro. Haverá uma hierarquia entre os prisioneiros, daqueles que se tornarão alimentos e terão seus membros cortados, para aqueles que cortarão os membros e aqueles que comerem esses membros. Isso cria ódio, e uma vez que eles são dominados por esse ódio, tudo o que preciso fazer é dar um empurrãozinho naqueles que foram usados como alimento. Isso os encoraja a se revoltar e o resto pode imaginar. Seres que odeiam tudo são verdadeiramente assustadores.”
“...Isso é bem perturbador. Nós, de Nazarick, somos seres criados pelos Seres Supremos, e não há como trairmos o Ainz-sama. Mas pensar que esses humanos trairiam seus próprios mestres... bem, eles dificilmente têm algo que sequer possa ser lealdade.”
“Isso é o que torna interessante. Você poderia aproveitar os humanos dessa maneira também, não é, Albedo? Tudo o que precisa fazer é tratá-los como brinquedos.”
“Não sei bem onde quer chegar com isso.”
“Que pena. Enfim, conversar demais vai atrasar a execução das ordens do Ainz-sama. Se alguma coisa acontecer, me avise e voltarei imediatamente.”
“Mn. Eu não acho que chegaremos a isso, mas vou informá-lo, dependendo das circunstâncias.”
A mão branca-alabastro de Albedo emergiu debaixo dos lençóis para acenar adeus a Demiurge.
“Bem, estou indo. Ah, claro... Já que pretende fazer roupas de menino, tenho uma informação que pode ser importante. Você sabia que os Seres Supremos parecem preferir garotos com roupas de menina?”
“...Hm?”

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