Overlord V02-15 (Espadas Gêmeas da Morte Cortante - Parte3)


Havia um lugar que ocupava cerca de um quarto do anel externo de E-Rantel, que também era a maior parte do quadrante oeste. Era o cemitério comunal de E-Rantel. Outras cidades tinham seus próprios cemitérios, mas nenhum deles era tão grande quanto este.

Isso era para suprimir o nascimento de undeads.

Embora muitas coisas não fossem claras sobre a gênese espontânea dos undeads, a idéia básica era que as criaturas vis frequentemente surgiam dos lugares onde os vivos chegavam ao fim. Pessoas com mortes repentinas, violentas e os mortos que não foram devidamente reverenciados tinham maior chance de voltar à vida. Portanto, campos de batalha e ruínas tendem a ser infestados pelos undeads.

Como E-Rantel estava muito perto do Império, consequentemente havia campos de batalha, era necessário um enorme cemitério — um lugar onde os restos mortais pudessem receber a devida veneração.

Nesse aspecto, o país vizinho — o Império — também aderiu ao acordo comum de respeitar os mortos. Embora eles matassem uns aos outros, ambos sabiam que os undeads tinham os vivos como seu inimigo comum.

Além disso, havia outro problema com os undeads. Se negligenciados, os undeads normais geravam undeads mais poderosos. Por este motivo que os guardas e aventureiros da cidade patrulharam os cemitérios dia e noite para exterminar os undeads mais fracos o mais rápido possível.

Um muro rodeava o cemitério. Este muro era o limite entre os vivos e os mortos. Embora tivesse apenas 4 metros de altura e não pudesse ser comparado com os muros da cidade, era largo o suficiente para as pessoas andarem em cima dele. Os grandes portões que davam acesso ao interior, eram resistentes e não podiam ser facilmente violados.

Tudo isso para conter os undeads caso aparecessem no cemitério.

Havia escadas à esquerda e à direita dos portões e torres de vigia ao longo do muro. Os guardas se revezaram observando o cemitério abaixo enquanto bocejavam das torres de vigia, em turnos de cinco homens de cada vez.

O cemitério era forrado com arandelas encantadas com magia 「Continual Light」, então havia muita iluminação apesar da noite. Ainda assim, havia muitos lugares sombrios, e a visibilidade era ainda pior naqueles lugares bloqueados por lápides.

Um guarda empunhando a lança olhava distraidamente para o cemitério e disse ao seu colega que bocejava:

“Outra noite bem pacífica, ainda bem.”

“Pois é, foram o quê? Cinco Skeletons mais cedo, né? Comparado com o tanto que tinha antigamente, isso é nada.”

“Hm, será que as almas dos mortos foram chamadas pelos Quatro Deuses? Seria bom demais se fosse verdade.”

Os outros guardas foram atraídos pelo assunto e começaram a falar:

“Bem, se for apenas Skeletons e Zombies, podemos lidar com eles. O problema é que é bem chato acertar os Skeletons usando a lança.”

“Os Wights pra mim que são um pé no saco.”

“Pra mim, são os Skeleton Centipedes. Estariam fazendo meu funeral numa hora dessas se os aventureiros que tavam por perto não tivessem me socorrido.”

“Skeleton Centipedes? Ouvi dizer que os undeads poderosos só aparecem quando deixa os fracos se amontoarem. Então, tudo que precisa fazer é matar os fracos então os undeads fortes não aparecem.”

“Sim, é isso mesmo. O capitão e o pelotão patrulharam o cemitério na semana passada até cansar. O lado bom foi eles cobrirem um turno pra nós, prefiro não ter que passar por esse tipo de coisa novamente.”

“Mas sabe... quando paro pra pensar nisso, bate um mau pressentimento sobre a falta de undeads agora.”

“...Por que pensa isso?”

“Ah, sei lá... só sinto que podemos ter deixado algo passar em branco nas rondas.”

“Você tá pensando demais. É normal não ter muitos. Dizem que só surgem frequentemente quando enterram os cadáveres dos que morreram enquanto lutavam contra o Império. Enquanto não tiver uma guerra das feias, não existe motivo. Tá se preocupando à toa, entendeu?”

Os soldados acenaram um para o outro concordando. Eles haviam enterrado cadáveres humanos em suas próprias aldeias, mas nunca tinham ouvido falar dos undeads aparecendo com frequência.

“...Então, isso significa que as Planícies Katze devem ser bastante insanas.”

“Sim. Fiquei sabendo de uns boatos sobre uma criatura undead forte além da conta lá. Tá sabendo disso?”

Um lugar onde o Império e o Reino se enfrentam em batalhas ferozes. Também se tornou um lugar famoso pela proliferação de undeads. Aventureiros contratados pelos cavaleiros do Reino e do Império frequentemente iam caçar os undeads na região. Esta tarefa era suficientemente importante para que o Império e o Reino construíssem uma corporação nas pequenas cidades nas cercanias para sustentar seu pessoal.

“Eu ouvi falar que—”

Um guarda que estava prestes a falar de repente fechou a boca.

Outro guarda, que não se sentiu bem com isso, falou:

“Ei, não me assuste—”

“Silêncio!”

O guarda silencioso olhou diretamente para o cemitério, como se pudesse ver através da escuridão. Depois disso, os outros guardas começaram a olhar para o cemitério, um após o outro.

“...Você não ouviu?”

“É só o vento, não?”

“Não tem vento, não tem como ser a grama... consegue sentir? Um cheiro de terra. Quem vai cavar túmulos numa hora dessas? Cheira exatamente se como estivessem cavando...”

“Que isso cara, não brinque sobre esse tipo de coisa.”

“...Eh? Ah, ei! Olhe pra lá!”

Um dos guardas apontou para o cemitério, e todos os outros olharam para o local para o qual ele estava apontando.

Dois guardas estavam correndo para as portas. Os dois ofegavam pesadamente, estavam com olhos esbugalhados e muito suados, os cabelos impregnados pelo sebo grudavam em suas testas.

Um crescente sentimento de medo encheu os outros guardas quando viram isso.

Patrulhas de guarda no cemitério se moviam em grupos de pelo menos dez. Por que havia apenas duas pessoas aqui? A julgar pela maneira como não tinham armas e estavam correndo pela vida, eles entraram em pânico e fugiram.

“Abram, abram logo! Abra os portões, depressa!”

Ao ver os dois homens gritando na frente dos portões, os guardas apressadamente desceram as escadas e os deixaram passar.

Antes que os portões pudessem até se abrir completamente, os dois guardas forçaram a entrada. Eles caíram no chão, mas continuaram a gritar.

“Que porra foi essa...”

Os dois guardas pálidos que tinham acabado de escapar do cemitério interromperam os interrogadores, ofegando e gritando:

“Feche, feche os portões! Rápido!”

Esse comportamento estranho enviou um arrepio na espinha dos outros guardas. Trabalhando juntos, eles fecharam os portões e os trancaram sem perder tempo.

“O que aconteceu? Cadê os outros!?”

Quando ouviram essa pergunta, um olhar assombrado apareceu nos rostos assustados dos guardas:

“El-eles foram comidos pelos mortos!”

Ao perceber que oito de seus companheiros haviam morrido, os guardas imediatamente olharam para seu capitão. Ele imediatamente ordenou:

“...Ei, um de vocês suba e dê uma olhada!”

Um guarda apressadamente subiu as escadas, mas na metade do caminho ele congelou no lugar.

“O que aconteceu?”

O guarda trêmulo gritou:

“Os undeads! Os undeads estão por toda parte!”

Se alguém escutasse atentamente, seria capaz de distinguir um som que soava como dez mil cavalos galopando, vindo do outro lado do muro. Todos, não apenas os guardas de agora, ficaram estupefatos com a cena diante deles.

Uma enorme quantidade de undeads — tão grande a ponto de fazer todos que a viram sem palavras — se aproximavam dos portões do cemitério.

“Por quê... tem tantos...?”

“Isso é mais que cem ou duzentos... deve haver mil deles... ou mais...”

As luzes mágicas iluminavam incontáveis undeads, eram como sombras se contorcendo na escuridão, por isso era difícil obter uma contagem exata.

Envolvida no cheiro de podridão, a massa de mortos se arrastou para as portas como nuvens de tempestade. Não eram apenas Zombies e Skeletons lá embaixo; havia também alguns undeads mais raros e mais poderosos — Ghouls, Ghasts, Wights, Swell Skins, Corrupt Dead e mais.

Os guardas não conseguiram evitar o medo.

Como o cemitério estava cercado por um muro, os undeads não podiam atacar os moradores enquanto o muro estivesse de pé. Contudo, mesmo se mobilizassem todos os guardas, era incerto se poderiam defender-se de uma horda tão grande. Os guardas eram essencialmente cidadãos normais e não tinham confiança em exterminar esses undeads.

Além disso, alguns undeads poderiam transformar suas vítimas mortas em outros de sua própria espécie. Se a situação piorasse, os guardas acabariam se tornando undeads e atacariam seus companheiros. E, embora ainda não tivessem visto nenhum undead voador, os guardas tinham um mau pressentimento — de que, se não eliminassem todos, uma criatura undead voadora acabaria surgindo cedo ou tarde.

—A maré de undeads bateu na lateral do muro.

Doom. Doom — Um estrondo colossal foi sentido.

Os undeads sem mente não sentiam dor, começaram a se chocar violentamente contra os portões. Era como se soubessem que poderiam atacar os vivos se eles os quebrassem.

Doom. Doom.

Os sons de batidas repetidas e os constantes grunhidos dos undeads eram ouvidos do outro lado do portão.

Eles não precisavam de aríetes. Os undeads — que não se importavam caso seus corpos fossem destruídos pelo seu ataque ininterrupto — eram armas de cerco por direito próprio.

Suor frio escorria nas costas dos guardas que presenciavam isso.

“Toquem o sino! Peçam ajuda do quartel! Vocês dois aí, vão informar as outras portarias! Agora, vão!!”

O capitão, que já havia recuperado seus sentidos, continuou dando ordens:

“Você aí atrás, peguem suas lanças e perfurem os undeads que subirem os muros!”

Os guardas lembraram-se de seu dever quando ouviram as ordens e começaram a empurrar os undeads abaixo deles com selvageria. Os undeads cobriam a terra como uma inundação putrefata, então qualquer ataque deles era como ir de encontro com uma massa de carne morta.

Eles empurraram, recompuseram-se e empurraram novamente.

Sangue manchado derramava-se no chão, os narizes dos guardas logo se acostumaram ao fedor da decadência. Eles repetiam os mesmos movimentos repetidas vezes como maquinas. Eles mataram vários undeads, que caíram no chão e foram pisoteados até virarem gosma por todos os que estavam por cima.

Como os undeads tinham pouca inteligência, eles não atacaram os guardas que os apunhalavam com suas lanças. Repetir as mesmas ações simples diminuiu a sensação de perigo dos guardas.

E então, como se aguardasse por esse momento—

“Uwaaaaaaaah!”

Um grito perfurou o ar. Quando os outros guardas se viravam para olhar, eles viram algo comprido e enroscado no pescoço de outro guarda.

Era um objeto viscoso e rosado — um intestino.

A criatura que tinha disparado um intestino estava mais distante, era um undead em forma de ovo, com uma enorme cavidade na frente de seu corpo. Dentro dessa cavidade havia vários órgãos internos, tremulando e contorcendo-se como parasitas.

Essa criatura undead era chamada de Organ Egg.

O intestino contorcido puxou o corpo do guarda.

“Hyaaaaaaa!”

Antes que seus amigos pudessem salvá-lo, o guarda gritou e caiu—

“Salve, me salve! Alguém me ajude! Agyaaaah!”

—Seus gritos encheram o ar. Todos os guardas viram o terrível destino de seu colega, comido vivo pela multidão de undeads.

A armadura que protegia seu corpo e suas tentativas de proteger seu rosto só prolongaram seu sofrimento. Seus dedos, suas panturrilhas, seu rosto, tudo foi devorado até os ossos.

“Recuar! Desçam do muro!”

Depois de ver as contrações internas do Organ Egg, o capitão da guarda ordenou uma retirada.

Todos os guardas correram apressadamente escada abaixo, eles podiam ouvir os sons dos undeads batendo nos portões ficando mais alto. Os portões começaram a gemer sob a tensão.

A sensação da desgraça iminente ficou mais forte. As chances de resistirem até que a ajuda chegasse, ou de que nenhum outro undead forte aparecesse eram muito baixas. Uma vez que os portões fossem estourados, a maré da morte inundaria e somente os deuses sabiam quantas vidas seriam perdidas.

Assim que os guardas foram totalmente consumidos pelo desespero, um barulho de metal pôde ser ouvido.

Todos olharam reflexivamente para a fonte do som.

Diante de seus olhos havia uma fera mágica cujos olhos negros redondos brilhavam com inteligência, montado na fera, um guerreiro de armadura completa se fez presente. Ao lado deles estava uma linda mulher que parecia completamente incompatível com a dupla.

“E-ei! Este lugar é muito perigoso! Deem o for—”

No meio das palavras do guarda, ele percebeu que havia uma placa de metal pendurada no pescoço do guerreiro.

Um aventureiro!

No entanto, essa brasa de esperança foi apagada quando ele viu que era uma plaqueta de cobre. Os aventureiros de nível mais baixo não poderiam salvá-los desse dilema. Um olhar de desapontamento apareceu aos olhos de todos os guardas presentes.

O guerreiro desmontou sua fera com agilidade. Não havia indício de falta de jeito em seus movimentos.

“Você não me ouviu? Dá o fora daqui, agora!”

“Nabe, minha espada.”

A voz do guerreiro foi mais suave do que o grito do guarda, mas surpreendentemente ressoou até mesmo através do clamor do enxame de undeads. A mulher bonita se aproximou do guerreiro e sacou uma espada das costas.

“Essa coisa atrás de vocês. Não acham que é perigosa?”

Os guardas se viraram em resposta às palavras do guerreiro, lá observaram o que mais temiam.

Eles viram uma forma que era mais alta que as paredes de 4 metros de altura.

Era um Necrosome Giant, uma gigantesca criatura undead feita de incontáveis cadáveres.

“Uwaaaaah—”

Assim que os guardas gritaram e se prepararam para fugir, uma visão estranha apareceu diante deles. O guerreiro que acabou de chegar levantou sua espada na postura de um lançador de dardo.


O que ele está fazendo?
No momento seguinte, essa pergunta desapareceu como névoa na luz do sol.

O guerreiro arremessou sua espada com velocidade inacreditável. Os guardas olhavam apressadamente para onde a espada voara e lá viram uma visão ainda mais incrível.

O Necrosome Giant, aquela enorme criatura undead, que era aparentemente invencível, cambaleou para trás como se tivesse sido atingido na cabeça por um inimigo ainda maior, antes de desabar no chão. Um estrondo ribombante forneceu a prova de que a criatura gigantesca havia sido derrubada.

“—Estes undeads estão no caminho.”

Com isso, o guerreiro negro sacou sua outra espada grande e avançou.

“Abram isso.”

Os guardas não pareciam ter entendido o que o guerreiro disse. Eles piscaram várias vezes antes de finalmente conseguirem analisar as palavras do guerreiro.

“Não, não seja tolo! Tem uma horda de undeads do outro lado do portão!”

“E daí? Isso é algo que eu, Momon, devo me importar?”

Diante da absoluta confiança do guerreiro negro, todos os guardas foram abalados até o núcleo e não puderam responder.

“...Bem, se não quer abrir, então não há nada a se fazer. Terei que dar meu jeito.”

O guerreiro se impulsionou para frente e chutou o chão de pedra, desaparecendo do outro lado da parede. Ele saltou por cima de um muro de 4 metros de altura em um único salto, tudo isso enquanto usava armadura completa.

Uma cena que mal parecia real.

Os guardas não conseguiram acreditar nos acontecimentos que acabaram de ocorrer. Cada um deles continuou olhando boquiaberto o lugar onde Momon estava.

A linda mulher flutuou para o céu a partir de sua posição original. Aparentemente transpassaria o muro assim, mas então uma voz a deteve:

“Um momento por favor! Por favor, leve este aqui também!”

A voz veio da poderosa fera que servira de montaria para o guerreiro de agora a pouco. Sua voz era tão inspiradora quanto sua aparência.

As sobrancelhas da linda garota se franziram levemente — não que isso tenha danificado sua aparência — e então respondeu a fera:

“...Suba as escadas até lá. Você ainda deve ser capaz de se mover depois de cair de uma altura como essa, não?”

“Claro! Este aqui deve correr para o lado do mestre! Espere por este aqui, Milorde!”

A enorme criatura passou pelos guardas e subiu agilmente as escadas. Ele pulou por cima do muro e aterrissou do outro lado.

Agora tudo era silêncio.

Eles ficaram olhando boquiabertos e com os olhos atordoados por um tempo, como se um tufão tivesse acabado de passar por eles. O primeiro guarda a recuperar falou numa voz trêmula:

“Ei... você ouviu isso?”

“Ouvir o quê?”

“Os sons dos undeads.”

Mesmo que eles encostassem os ouvidos nos portões para ouvir, não podiam perceber nada. Era como se um véu de silêncio estivesse recobrindo o cemitério. O som constante dos undeads batendo nos portões era como se nunca tivesse acontecido.

Os guardas assustados murmuraram:

“Ei, isso realmente aconteceu? Aquele guerreiro... havia undeads lá, e muitos deles, e ele foi pra cima deles... em linha reta.”

Eles estavam tomados por partes iguais de choque e admiração.

A razão pela qual o barulho havia parado era porque os undeads estavam sendo atraídos por um novo alvo. Devido ao silêncio, ficou implícito que eles ainda estavam lutando e não haviam retornado.

Este cenário inacreditável atraiu os guardas para o topo dos muros para satisfazer a sua curiosidade. Eles não podiam acreditar no que viram lá de cima e murmuraram:

“Puta merda... aquele guerreiro... que tipo de homem ele é...?”

Inúmeros corpos espalhados pelo chão. Montanhas de cadáveres estavam por toda parte, cobrindo todo o cemitério. Embora alguns dos undeads se agarrassem a um fio de não-vida, lutando fracamente para mover-se, todos haviam perdido a capacidade de lutar.

O cheiro de decadência pairava no ar enquanto eles observavam, então ouviram os sons da batalha distante.

“...Só pode ser piada... ele ainda tá lutando? Todos esses undeads, até os mais fortes, e ele passou por todos eles! Incrível...!”

“Quem era aquele guerreiro, afinal!?”

“...Ele se chamava de Momon, é isso? Aquela plaqueta de cobre dele é algum tipo de piada? Ele tá mais praqueles aventureiros lendários com plaqueta de adamantite, o que acham?”

Os outros silenciosamente expressaram sua aprovação. Alguém assim não poderia ser um mero aventureiro usando uma placa de cobre.

Ele deveria ser alguém que possuísse uma plaqueta feito do mais alto nível de todos os metais — em outras palavras, um herói.

Não havia outra possibilidade.

“Acho quê... a gente acabou de testemunhar o nascimento de uma lenda... O Guerreiro Negro... não, O Herói Negro...”

Todos os outros não puderam deixar de concordar com isso.

♦♦♦

Quando a mão direita se moveu, os undeads foram atirados para longe. Quando sua mão esquerda bateu, os undeads foram cortados em dois.

Ainz — um tornado de morte que matava tudo o que tocava — finalmente parou.

“Que pragas incômodas.”

Ainz havia recriado suas espadas grandes com magia e agora as segurava com as duas mãos. Ele olhou para os undeads ao redor dele com uma expressão exasperada em seu rosto, em seguida, apontou uma das espadas grandes coberta de fluidos vis contra eles.

Um undead recuou, parecia tentar fugir de Ainz. Os undeads não deveriam saber o significado do medo, mas eles passaram a temer Ainz.

“...Este aqui se desculpa profundamente pelas ações deste aqui...”

O som veio do alto de Ainz. O Sábio Rei da Floresta flutuava no ar, estava com as patas murchas para baixo. Seus bigodes caíram e sua voz soou igualmente sem vida.

Mas quem respondeu não foi Ainz.

“Poderia... parar de se mexer. Sua pele é muito macia, é difícil carregar quando se contorce.”

A voz de Narberal veio da barriga do Sábio Rei da Floresta. O hamster não estava voando, mas sim Narberal, que lançara a magia de voo em si mesma enquanto carregava a carga viva. Ela estava meia enterrada no pêlo do Sábio Rei da Floresta.

“Este aqui pede desculpas...”

Os undeads não inteligentes não atacaram Ainz quando ele apareceu. Isso porque eles puderam perceber a força vital, e sentiram que Ainz era do mesmo tipo deles.

No entanto, o mesmo não se aplicava à força vital do Sábio Rei da Floresta vindo na retaguarda. Isso resultou em uma batalha caótica durante o avanço de Ainz. Por esse motivo, o Sábio Rei da Floresta foi carregado por Narberal, para que os undeads não o tocassem.

A cada passo que Ainz dava para frente, os undeads davam o equivalente para trás. Eles o cercaram dessa maneira, mas mantinham a distância.

Este círculo se movia de acordo com os passos de Ainz. Embora os undeads parecessem estar à procura de uma chance de atacar, qualquer um que aparecesse seria imediatamente destruído por Ainz. Portanto, eles simplesmente o cercaram, mas não ousaram avançar.

Inúmeros undeads já haviam sido aniquilados por Ainz quando se aproximavam demais. Mesmo desprovidos de inteligência, haviam aprendido que era melhor manter certa distância, e foi por isso que escolheram cercá-lo.

“Bem, se ficar só nisso, será apenas uma perda de tempo.”

Ainz resmungou ao ver a enorme multidão de undeads que ainda restava.

Se ele quisesse quebrar o cerco, poderia facilmente cortar um caminho através da horda de undeads. Todavia, se forçasse o caminho, os undeads poderiam se espalhar em todas as direções e os guardas próximos poderiam acabar mortos ou feridos. Se isso acontecesse, ele perderia as testemunhas de seus atos e, assim, não conseguiria o objetivo de ser “o aventureiro que resolveu o problema”. Portanto, a fim de garantir a segurança dos guardas, ele teve que atrair os undeads para ele enquanto avançava. E devido a isso seu avanço progrediu lentamente.

E então, Narberal respondeu seriamente às palavras de Ainz:

“Devemos convocar reforços de Nazarick? Duas dúzias dos nossos podem aniquilar tudo neste cemitério que ousar ficar contra o senhor, Ainz-sama.”

“...Não seja idiota. Quantas vezes eu lhe disse nosso objetivo de vir a esta cidade?”

“Mas, Ainz-sama, se quiséssemos ganhar fama, não seria melhor deixar que os undeads invadissem a cidade e causassem mais baixas antes de entrarmos em ação?”

“Eu considerei essa possibilidade também. Se soubéssemos o objetivo do nosso inimigo, o poder de fogo desta cidade e assim por diante, aí poderíamos fazer isso. Mas como nos falta informação, não podemos perder essa chance. Também seria muito chato ter que ficar à mercê dos inimigos. Além do mais, outras equipes podem roubar nossa glória.”

“Entendo... Ainz-sama, o senhor é realmente incrível. Pensar que seu plano foi concebido de maneira tão imaculada; eu não esperava nada menos do nosso Governante Supremo. Eu me curvo diante de sua sabedoria superior mais uma vez. Falando nisso... sua tola vassala gostaria de ser iluminada em um ponto. Não seria melhor mandar os Eight-Edge Assassins, Shadow Demons e outros vassalos capazes de se esconder para observar a situação antes que ocorra uma grande mudança nas circunstâncias e, em seguida, se preparar para qualquer imprevisto?”

Ainz olhou silenciosamente para Narberal, que estava flutuando no ar.

O vento da noite soprava suavemente. Qualquer undead que se aproximasse buscando alguma brecha seria destruído em um único golpe por uma das espadas de Ainz.

“...Se, se eu ensinasse tudo, como você aprenderia? Descubra você mesma.”

“Sim senhor! Minhas mais profundas desculpas.”

Ainz ficou um pouco abalado com isso. Com vigor, ele olhou para trás a fim de verificar novamente a distância entre ele e a entrada do cemitério, e para atestar se os guardas ainda podiam vê-lo de lá.

“Enfim! Nosso tempo está ficando bastante apertado. Não dá para evitar — vou ter que traçar um caminho através deles.”

Ainz liberou seu poder.

Create Mid Tier Undead: Jack the Ripper. Create Mid Tier Undead: Corpse Collector.”

Depois de usar sua habilidade, duas criaturas undeads apareceram.

Um deles estava vestido com um sobretudo e usava uma máscara que mostrava um rosto sorridente. Seus dedos terminavam em bisturis cirúrgicos grandes e afiados.

O outro era uma criatura enorme e musculosa, seu corpo estava coberto de pústulas e as ataduras manchadas de amarelo. Havia muitos ganchos de metal por todo o corpo, assim como correntes metálicas cujas extremidades haviam vários crânios gemendo.

“Mate eles.”

Os dois undeads obedeceram às ordens de Ainz e partiram para cima da horda de undeads circundante. Embora houvessem apenas dois, eles eram mais fortes que qualquer um dos undeads presentes.

Enquanto Jack the Ripper, decepava os membros com cada golpe de suas mãos de bisturi, o Corpse Collector arrancava as cabeças dos undeads com suas correntes, Ainz ativou mais de suas habilidades.

“Então, vamos cuidar das coisas deste lado também.”

Essas habilidades eram Create Low Tier Undead: Wraith e Create Low Tier Undead: Bone Vulture. Depois de convocar vários deles, ele ordenou:

“Afastem quaisquer intrusos que entrarem no cemitério. Matar aventureiros é permitido, mas não matem os guardas.”

Os corpos dos Wraiths brilharam e desapareceram, e os Bone Vultures abriram suas asas e subiram aos céus. Agora que seu trabalho estava terminado, Ainz sorriu para si mesmo.

Os undeads de baixo nível estavam lá apenas para prevenir de alguns aventureiros usar magia de voo para alcançar a localização do inimigo, assim roubando o crédito pelo seu trabalho.

“Então, vamos indo.”

Enquanto os dois undeads convocados faziam uma exibição brutal de suas habilidades, Ainz avançou sem perder tempo rumo à horda de undeads de baixo nível.

♦♦♦

Apenas Narberal permaneceu com Ainz no momento em que chegaram à capela no centro do cemitério. Vários sujeitos de aparência suspeita estavam de pé em círculo diante da capela, aparentemente realizando algum tipo de ritual.

Todos usavam vestes negras sem detalhes e cobriam seus corpos inteiros, não variavam em cor ou textura. Os capuzes pretos em suas cabeças escondiam seus rostos e só mostravam seus olhos, enquanto os cajados de madeira que carregavam tinham entalhes estranhos nas extremidades.

Eles não eram altos e, a propósito, eram todos homens.

O único rosto exposto pertencia ao homem no meio, e parecia estar morto. Ele estava bem vestido e parecia estar concentrando-se na pedra negra que segurava na mão.

O vento levou palavras sussurradas aos ouvidos de Ainz. Os murmúrios no ar subiam e desciam em uníssono, soava como um cântico de algum tipo. Ainda assim, não aprazia como um réquiem para os mortos, mas mais como uma espécie de ritual sombrio que blasfemava os falecidos.

“Devemos emboscá-los?”

Narberal perguntou. No entanto, Ainz negou com a cabeça.

“Não teria sentido. Até porque, parece que eles já nos viram.”

Ainz não tinha usado habilidades relacionadas à ocultação, então ele simplesmente caminhou diretamente para o grupo. Embora ele pudesse ter evitado as luzes do cemitério, tudo o que a oposição precisaria fazer era usar 「Dark Vision」 para ver como se estivesse em plena luz do dia. Além disso, Ainz tinha experiência pessoal do fato de que os monstros convocados e seus invocadores estavam ligados por um elo mental. Como Ainz havia derrotado inúmeros undeads no caminho até aqui, eles devem ter notado que alguém estava se aproximando deles através desse vínculo.

Na verdade, já havia várias pessoas olhando para Ainz e Narberal.

Dado que ainda não haviam lançado um ataque, eles poderiam ter algo a dizer. Tendo chegado a essa conclusão, Ainz decidiu abordá-los de frente.

Enquanto Ainz e Narberal caminhavam abaixo das luzes mágicas, o grupo de pessoas suspeitas se posicionou, e um deles disse ao homem no centro:

“Khajiit-sama, eles estão aqui.”

Olha só, aquele idiota confirmou... não, isso pode ser puro fingimento. Melhor ouvir o que eles têm a dizer.

“Ah... que noite adorável. Não acha que é um pecado desperdiçá-la em um ritual antigo e chato?”

“Hmph... sou eu quem decide quando é a hora certa para um ritual. Mas deixando isso de lado, quem é você, afinal? Como rompeu a minha horda de undeads?”

Como se expressando a dúvida de todos. O homem de pé no centro do círculo, Khajiit — mesmo que com pseudônimo, era provavelmente o mais bem classificado de todos os presentes — perguntou a Ainz.

“Eu sou um aventureiro em uma missão, procurando um jovem desaparecido... acredito que você sabe de quem eu estou falando mesmo sem dizer o nome dele, correto?”

Os outros membros do grupo assumiram uma postura, que confirmou no coração de Ainz que eles não eram inocentes que haviam sido arrastados para o assunto.

Sob o elmo, Ainz sorriu amargamente para Khajiit, que estava olhando nos arredores.

“Apenas vocês dois? Onde está o resto do seu grupo?”

Ei ei, que tipo de pergunta é essa? Pode ser um joguete dele, está tentando ver se tem alguém preparando uma emboscada... fala sério, ele deveria ter pensado um pouco antes de abrir a boca. Só por isso fica claro que ele é só um pau-mandado.

Ainz cansadamente encolheu os ombros quando ele respondeu:

“Sim, só nós dois. Voamos até aqui com magia de voo.”

“Mentiroso, isso é impossível.”

Ainz sentiu que havia algum tipo de significado por trás daquela réplica curta. Então ele perguntou:

“Você não precisa acreditar, mas vamos voltar ao tópico principal. Se você deixar o garoto voltar para casa em segurança, posso poupar sua vida. Que tal isso, Khajiit?”

Khajiit olhou para o tolo discípulo que havia deixado escapar seu nome.

“—E você é?”

“Antes disso, há algo que gostaria de perguntar. Tem mais alguém além de vocês?”

Khajiit olhou friamente para Ainz:

“Somos os únicos—”

“—Tem certeza? Deveria haver alguém entre vocês com uma arma perfurante... Está planejando alguma emboscada? Ou será que a pessoa se escondeu com medo?”

“Huhu~ Você verificou os corpos, hein~? Nada maaaal.”

De repente, uma voz feminina veio da capela.

Uma jovem mulher emergiu lentamente na luz, e cada passo que dava era acompanhado pelo barulho de tilintar metálico.

“Você...”

“Ahhh~ eles me descobriram, não vai adiantar nada ficar escondida. Falando nisso~ eu só me escondi porque não posso usar a magia 「Conceal Life」.”

A mulher sorriu, em resposta a Khajiit, que estava um pouco irritado.

Ignorando essa resposta, ele ainda não tinha confirmado se Nfirea ainda era refém.

Talvez o Nfirea já esteja morto...

Enquanto pensava na possibilidade, a mulher perguntou:

“Posso saber o seu nome, garotão? Ah, eu sou Clementine. Prazer em te conhecêêêr~!”

“...Bem, é meio que inútil responder à sua pergunta, mas acho que não custa nada. Meu nome é Momon.”

“Eu nunca ouvi esse nome antes ... e você?”

“Nunca — e reuni informações sobre todos os aventureiros de alto nível da cidade, não havia nenhum Momon entre os nomes. Mas como você sabia que eu estava aqui? A mensagem apontava para os esgotos...!”

“A resposta está sob o seu manto. Mostre-me.”

“Uwah~ Pervertidooo! Seu taradão.”

Quando ela disse isso, o rosto da garota — Clementine — se torceu. Ela tinha um sorriso tão grande que quase chegava aos ouvidos.

“Brinca~deirinha, tá falando disso aqui?”

Clementine abriu o casaco, revelando o que parecia ser uma armadura de escamas, cujo cada placa era díspar. Porém, a excelente visão de Ainz viu a verdade imediatamente. Essas não eram as placas de metal normalmente encontradas em armaduras de escamas.

Eram inúmeras plaquetas de aventureiro. Platina, ouro, prata, ferro, cobre, até mythril e orichalcum. Cada uma provava quantos aventureiros que Clementine havia matado, os troféus tirados de suas caçadas. Inumeráveis lamentações pedindo vingança pareciam assombrar o tilintar das placas de metal.

“Seus prêmios que me trouxeram até você.”

Clementine ficou ligeiramente confusa, mas Ainz não pretendia se explicar.

“...Nabe. Lide com esse Khajiit e os outros homens. Eu cuido dessa dama.”

Com isso, ele silenciosamente alertou Nabe para não abaixar a guarda.

“Entendido.”

A expressão de Khajiit estava em algum lugar entre zombaria e um sorriso. Os olhos frios de Narberal, por outro lado, não mostravam nada em seu rosto.

“...Clementine, que tal lutarmos até a morte mais adiante?”

Ainz imediatamente partiu sem esperar Clementine responder. Ele estava muito confiante de que ela não iria rejeitar o desafio, e o som de seus passos preguiçosos atrás dele provaram isso.

Uma vez que se distanciaram, uma descarga de relâmpago estrondosa, de cegar qualquer um que olhasse, irrompeu entre Narberal e Khajiit. Como se isso quebrasse o gelo, Ainz e Clementine trocaram olhares.

“Será que aquelas pessoas que eu matei naquela loja eram seus amigos? Tá com raivinha porque matei eles, é~?”

Clementine continuou em tom zombeteiro:

“Ufufufu, aquela magic caster era muuuuito engraçada. Até o final, ela acreditava que alguém viria salvar todo mundo~, nem tinha como ela aguentar meus ataques até alguém vir, ainda mais com aquele corpinho magricela... Não me diga que era pra ser você o salvador dela? Desculpinha~, matei todo mundo.”

Clementine era toda sorrisos. Ainz olhou para ela e balançou a cabeça.

“...Não, não há necessidade de se desculpar.”

“Mesmo? Então tá~ É legal irritar as pessoas até que falem; Como pôde fazer isso!? sabe como é, né? Ei, por que não tá ficando bravo? Você é muito sem graça! Então não eram mesmo seus amiguinhos, é?”

“...Bem, sob as circunstâncias certas, eu poderia ter feito o mesmo que você. Eu seria um hipócrita se a culpasse por algo.”

Ainz levantou lentamente suas espadas grandes:

“...O problema é que, eles eram ferramentas para construir minha reputação. Assim que voltassem para a estalagem, teriam espalhado a notícia dos meus feitos para os outros aventureiros. Eles teriam contado a todos sobre como eu e minha companheira fomos heroicos ao subjugar o Sábio Rei da Floresta por nós mesmos. E então você apareceu e atrapalhou meus planos. Isso me desagrada muito.”

Clementine parecia ter percebido algo no tom de Ainz, e ela riu incontrolavelmente:

“Ah tááá. Oh, coitadinha de mim por ter deixado você bravinho. Ah sim, mas foi uma má decisão lutar comigo~. Aquela menina bonita é uma magic caster, né? Ela não será capaz de derrotar o Khajii-chan — se os dois trocarem de lugar, talvez você possa vencê-lo. Mas no fim, ela também não teria chance alguma comigo~.”

“A Nabe sozinha seria mais que suficiente para você.”

“Não seja bobo! Acha que uma magic caster de quinta poderia me vencer!? Vai acabar em dois ou três golpes~. Sempre foi assim!”

“Hm, então é confiante em suas habilidades como guerreira...”

“Mas é claro. Nenhum guerreiro neste país pode me derrotar~ não, calma aí, quase nenhum guerreiro neste país pode me derrotar, enfim!”

“Mesmo... bem, isso me deu uma idéia. Eu lhe darei uma vantagem. E assim me vingarei de você.”

Os olhos de Clementine se estreitaram e, pela primeira vez, ela teve uma expressão de aborrecimento no rosto.

“De acordo com as informações dos caras da Flor do Vento, há apenas cinco humanos neste país que podem me dar uma boa briga. Gazef Stronoff. Gagaran da Rosa Azul. Luisenberg Alberion da Gota Vermelha. Brain Unglaus. Por fim, o aposentado Vesture Kloff Di Laufen... embora nenhum deles possa me atingir se não vierem com tudo. Mesmo sem equipar os itens mágicos de meu país.”

Clementine sorriu para Ainz. Era um sorriso nojento.

“Eu não sei que tipo de cara feia você tem debaixo desse elmo aí, mas saiba que a grande Clementine não perde! Eu entrei no reino dos heróis!

Em contraste com a agitada Clementine, a resposta de Ainz foi calma e composta.

“Então, por isso estou lhe dando esta vantagem. Eu me recuso a levar você a sério.”

Yokai POP
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Dividindo com o mundo as histórias que eu gosto.

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