“Hmm...”
Enquanto suspirava, Ainz olhou para uma certa parte do vilarejo.
Lá, ele viu vários aldeões alinhados em fila. Havia homens, mulheres e crianças de todas as idades. Ele podia ver uma mulher na casa dos 40 anos com aparência materna, bem como adolescentes. A única coisa que eles tinham em comum era o olhar severo em seus rostos, o que poderia até mesmo ser confundido com hostilidade. Era um sinal claro de que ninguém aqui estava para brincadeiras.
Um Goblin com um arco dirigiu-se aos aldeões.
Até o senso de audição aguçado de Ainz não conseguia distinguir suas palavras dada a grande distância.
Depois de um tempo, a fila de aldeões levantou lentamente seus arcos. Era um armamento simples, os arcos curtos pareciam deformados, provavelmente foram feitos por eles mesmos.
Depois de puxar seus arcos até o limite, miraram nos homens de palha a alguma distância.
O Goblin deve ter dado uma ordem, porque os aldeões soltaram às flechas ao mesmo tempo.
Os arcos pareciam grosseiros, mas as flechas que dispararam voaram em belas trajetórias. Todas cravaram nos homens de palha, ninguém errou.
“Nada mal...”
Ainz não pôde deixar de elogiá-los.
“Eles são realmente tão bons assim?”
Narberal, de pé atrás de Ainz, não pôde deixar de expressar sua dúvida.
Como de costume, Narberal não conseguia entender o porquê suas habilidades eram louváveis. Afinal, eles eram como crianças brincando em comparação com os arqueiros da Grande Tumba de Nazarick.
Quando percebeu o que Narberal estava pensando, um sorriso amargo floresceu no rosto ilusório de Ainz sob o elmo.
“Compreendo sua dúvida, Narberal. A técnica deles dificilmente é algo que anime. Mas lembre-se, há dez dias eles nem sabiam como usar um arco. Para evitar que seus cônjuges, filhos e pais sejam mortos como o de antes, eles começaram esse treinamento, para que pudessem um dia ficar com armas em punho e lutar. Isso não é digno de louvor?”
O que era verdadeiramente louvável foi a profundidade do ódio dos aldeões, isso levou até este ponto.
“Minhas mais profundas desculpas. Eu não tinha pensado tão longe.”
“Tudo bem. Não se preocupe tanto com isso, Nabe. É verdade que as habilidades deles não são tão impressionantes.”
Ainz observou mais flechas atravessarem o ar e penetrarem os bonecos de palha. Uma idéia de repente veio à mente.
Quão fortes eles se tornaram? Quão fortes eles poderiam se tornar?
Ainz havia atingido o nível máximo em YGGDRASIL, nível 100. Quando ele veio ao mundo, seu indicador de XP em excesso estava em torno de 90% cheio. Era apenas um palpite, mas já que suas outras habilidades estavam intactas, o conceito de níveis deveria existir neste mundo também. A questão agora era se ele poderia obter os 10% restantes da barra de experiência e atingir o nível 101.
Até certo ponto, ele tinha uma resposta para essa pergunta.
Ele não poderia ficar mais poderoso. Isso era o máximo de poder que ele conseguiria alcançar. Mas e se o poder de Ainz não pudesse aumentar, porém as fraquezas dos aldeões pudessem se tornar uma fonte insondável de poder?
Se não houvesse limites para os habitantes deste mundo, se eles pudessem superar o nível máximo de 100 em YGGDRASIL, então Ainz e os vassalos da Grande Tumba de Nazarick não seriam capazes de derrotá-los.
E isso definitivamente—
“Não é impossível...”
Ainz sentiu que era possível que os Seis Deuses que apareceram na Teocracia Slane há 600 anos atrás, fossem na verdade jogadores. Embora ele não soubesse o porquê eles tenham aparecido com um intervalo de tempo tão grande em relação a Ainz, se houvesse algum heteromorfo — que não tem tempo de vida determinado — entre eles ou se possuíam profissões que estendiam sua expectativa de vida, havia uma chance muito grande de terem sobrevivido até os dias atuais.
Se os Seis Deuses ainda estivessem escondidos na Teocracia Slane, e se tivessem começado a upar níveis usando o poder dos outros Seis Deuses — isto é, se fossem ajudados através das habilidades de jogadores poderosos, assim ganhando experiência mais rápido que o normal —, seria bem possível que houvessem pessoas além do nível 100.
Se fosse esse o caso, a razão pela qual a Teocracia ainda não havia dominado o mundo poderia ser porque havia outros seres do mesmo calibre à espreita. Pode até ser o caso de que ter o nível 100 não significasse nada.
Enquanto ele pensava sobre isso, o intestino inexistente de Ainz começou a se contrair novamente.
Se os Seis Deuses realmente fossem jogadores, então ele tinha que tentar ficar de bem com eles enquanto ele não tinha informações sobre este mundo. De acordo com os membros da Escritura da Luz Solar, os cavaleiros do Império que atacaram este vilarejo eram impostores da Teocracia, o que significava que salvar este vilarejo estava fazendo deles um inimigo.
“Ajudá-los foi um erro...”
Como ele havia imaginado, coletar mais informações era uma prioridade máxima.
Quando Ainz estava meditando distraidamente sobre esses assuntos, ele notou um adolescente correndo em sua direção. O cabelo que normalmente obscurecia seus olhos balançava de um lado para outro, e ele podia ver um par de olhos fixos em si mesmo.
Ainz imediatamente teve um mau pressentimento sobre Nfirea. Parecia o mesmo pânico que o Chefe do Vilarejo tinha quando algo de ruim surgira.
“Por que a pressa? Uma emergência surgiu novamente? Este vilarejo é um imã de mer...”
Nfirea chegou ao murmurante Ainz.
Ele estava ofegante e sua testa estava escorregadia de suor. Seus cabelos, grudados na pele devido a transpiração, revelavam uma expressão séria dirigida a Ainz e Narberal.
Nfirea parecia um pouco hesitante e inseguro de falar. No final, ele reuniu sua determinação e perguntou para Ainz:
“Momon-san, você é o Ainz Ooal Gown-san?”
A pergunta repentina deixou Ainz perplexo. Ele deveria ter negado imediatamente.
Mas ele poderia fazer isso? Foi um nome feito junto com seus amigos. Agora que ele usou isso como se fosse dele, ele poderia negar isso tão facilmente?
Esta breve hesitação foi uma admissão não dita e Nfirea continuou:
“Então foi você, Gown-san. Obrigado por salvar o vilarejo, além de salvar a Enri.”
Quando Ainz olhou para Nfirea, ele respondeu baixinho:
“Não... eu...”
Depois de ouvir as palavras que Ainz conseguiu espremer, Nfirea assentiu em compreensão.
“Sim. Eu entendo que tem seus motivos para querer usar um nome diferente agora, mas ainda assim, eu tenho que agradecer o senhor por salvar este Vilarejo — por salvar a Enri, a garota que eu gosto.”
Ainz não respondeu a Nfirea que se curvava profundamente. Enquanto parte dele, a parte do tio de meia-idade, estava meditando que as palavras “a garota que eu gosto” eram realmente uma coisa jovem, outra parte dele estava relembrando nostalgicamente sobre coisas passadas, e ao mesmo tempo ele pensava em outras coisas mais importantes.
“Ah... isso basta... levante a cabeça.”
Esta resposta foi uma admissão tácita de que ele era de fato Ainz Ooal Gown, mas não importava o quanto ele tentasse escapar, não havia como negar a conclusão de Nfirea. Esta foi uma derrota completa para Ainz.
“Sim, Gown-san. E na verdade... eu tenho escondido algo de você.”
“...Venha comigo. Nabe, fique aqui e espere por instruções.”
Depois de dar ordens à Narberal, Ainz levou Nfirea para um lugar mais isolado. Isso era para evitar que Narberal reagisse exageradamente caso ouvisse algo estranho.
Depois de terem ido longe o suficiente de Narberal, Ainz se virou encarando Nfirea.
“A verdade é quê...”
Nfirea engoliu em seco, mas o olhar no rosto dele estava cheio de determinação.
“Gown-san, a poção que você deu àquela aventureira na estalagem não pode ser feita por métodos convencionais e é extremamente rara. Eu queria saber que tipo de pessoa teria essa poção e que tipo de métodos produziria uma poção, e foi por isso que eu te contratei. Sinto muito por isso.”
“Ah, então é isso.”
Como ele pensava, tinha sido um erro.
Ainz tinha dado a poção de cura para Enri e para outra pessoa em E-Rantel. Por causa disso, sua identidade havia sido exposta. Além disso—
...Talvez eu devesse recuperar aquela poção. Se eu tivesse conseguido o nome daquela mulher aventureira também, teria sido bom... embora, não faz sentido me arrepender agora.
Na época, Ainz sentiu que dar aquela poção era a melhor coisa a se fazer.
Aquela mulher tinha dito: “Bem, mas veja você e essa armadura chamativa, certamente deve ter uma poção de cura aí, né?” Talvez ela não tivesse pensado antes de falar, mas o fato foi que essas palavras limitaram muito as respostas que Ainz poderia ter dado.
Por exemplo, ver uma pessoa saindo de um carro caro. Ao ver as roupas e a aparência opulenta é quase certo supor que o carro correspondia ao estilo de vida. Mas e se essa pessoa se vestisse de maneira desleixada? As pessoas podem pensar que essa pessoa gastou todo o seu dinheiro no carro. E poderiam até rir do indivíduo.
Ainz queria evitar esse tipo de situação.
Se ele tivesse recusado, as pessoas poderiam ter ficado com ciúmes de sua bela companheira Narberal, bem como sua própria armadura completa. E poderiam até ter começado a espalhar rumores maliciosos. E a depender do teor do rumor, poderia até segui-lo onde quer que fosse, com isso mais e mais pessoas espalhariam e inventariam maledicências.
Ainz tinha ido até E-Rantel para construir sua reputação como um aventureiro. Como resultado, teve que evitar qualquer ação que pudesse prejudicar sua imagem pública.
Ele lhe dera a poção depois de considerar esses fatores.
Foi uma aposta que ele perdeu, mas não lamentou. Não chegou a ser um erro fatal, tudo o que precisava fazer era trabalhar arduamente para compensar isso. Afinal, Ainz não era um ser perfeito, erros acontecem.
Ainda assim, ele não sabia o porquê Nfirea estava se desculpando.
“Existe alguma coisa para se desculpar?”
“Eh?”
“...Bem, eu não posso dizer que me sinto totalmente bem com alguém escondendo algo de mim enquanto sorri e aperta minha mão. Enfim, quer dizer que essa tarefa foi projetada para construir uma conexão comigo, é isso? Então o que há de errado?”
Um Ainz profundamente confuso fez esta pergunta do fundo do seu coração.
“Gown-san, você é realmente uma pessoa magnânima...”
Ainz não sabia o porquê Nfirea ficou tão impressionado com ele. Construir conexões era um elemento básico da vida em sociedade, então não havia nada de errado com o que Nfirea fizera. Ele estava um pouco confuso sobre os detalhes, mas vagamente entendeu. Talvez Nfirea pensasse que Ainz pudesse pensar que a aproximação foi para roubar segredos industriais.
“Se eu dissesse como fazer a poção, o que você faria com esse conhecimento?”
Nfirea ofegou de surpresa e, após um breve período de pensamento, ele respondeu:
“Eu não tinha pensado tão longe. Eu só queria saber porque estava curioso... a Obaa-chan deve pensar o mesmo.”
“Entendo. Então, não há problema. Se você estivesse planejando explorá-la para ganho criminoso, seria um assunto diferente, mas se não, então está tudo bem.”
“Você é realmente incrível. Não é de se admirar... que ela te olha daquele jeito...”
Quando Nfirea murmurou, o vento secou o suor na testa e seu cabelo caiu para cobrir os olhos novamente. Ainda assim, Ainz podia ver uma expressão de admiração em seus olhos, como um garoto se encontrando com seu ídolo favorito.
A expressão de Nfirea lembrou Ainz do olhar de surpresa e imensa gratidão em seu próprio rosto, quando seus amigos o salvaram depois que ele foi repetidamente PKed.
Por um momento, sentiu-se envergonhado, e então essa emoção foi suprimida.
Ainz ficou surpreso que a atitude de Nfirea pudesse afetar seu coração, mas imediatamente se acalmou e seguiu em frente. Primeiro, ele tinha que ter certeza de uma coisa.
“A propósito, você é o único que sabe da minha identidade?”
“Sim, eu não contei a mais ninguém.”
“Perfeito, isso é bom.”
Dizendo isso, Ainz pensou em continuar falando com Nfirea, mas não sabia por onde começar. No final, ele decidiu perguntar diretamente a ele.
“...No momento, sou simplesmente o aventureiro Momon. Eu ficaria feliz se você pudesse manter isso em mente.”
“Sim, eu pensei que diria algo assim. Sinto muito por te causar todo esse problema, Momon-san, mas eu precisava agradecer pessoalmente. Muito obrigado por salvar a Enri e o vilarejo.”
Nfirea agradeceu profundamente com um olhar sincero em seus olhos.
“Não há necessidade de ficar assim. Eu estava apenas corrigindo algo errado enquanto passava por aqui.”
“Mesmo assim, não havia razão para ter dado aquele par de trombetas.”
A verdade é que não havia razão específica para dar aquelas trombetas. No entanto, já que Nfirea interpretara o presente com tanto louvor, ele deixaria as coisas por isso mesmo. Ainz não disse nada, apenas assentiu de um jeito magnânimo.
♦♦♦
Cumprindo seus deveres como empregador, Nfirea combinou com Ainz para seguir em direção à floresta dentro de uma hora. Depois de agradecer novamente, ele deu meia-volta e saiu.
Enquanto observava Nfirea sumir ao longe, Narberal veio e se curvou diante de Ainz.
“Ainz-sama, sinto muitíssimo!”
“Alguém pode ver você fazendo isso, levante a cabeça.”
Uma vez que ela se endireitou, Ainz continuou em um tom farpado:
“E você não está errada em se desculpar. Afinal, tudo isso é porque você mencionou o nome da Albedo.”
Minha exposição aqui não tinha nada a ver com o nome da Albedo, mas isso ainda foi um grande erro. Posso muito bem repreendê-la por isso agora e ter certeza de que ela não faça isso de novo. Primeiro, eu deveria proibi-la de me chamar de Ainz... embora... eu não acho que alguém tenha ouvido...
“Por favor, permita-me pagar meu erro com a minha vida!”
Isso não soou como uma brincadeira.
Todos na Grande Tumba de Nazarick eram assim. Eles consideram os membros da guilda Ainz Ooal Gown como seus superiores absolutos. Eles se orgulhavam de sua lealdade — até o ponto de morrer — a esses Seres Supremos.
Embora parecesse um fardo para Ainz, ter os NPCs criados por seus antigos companheiros sendo leais a ele não era algo ruim. Pode muito bem ser o destino de qualquer criador.
Narberal era uma NPC assim. Se ele, de brincadeira, ordenasse que ela se matasse, ela imediatamente tiraria a própria vida. Ainda assim, ela pedira permissão para se matar, tamanha era sua lealdade ao seu mestre, a quem sua vida pertencia.
“...Já chega. Qualquer um pode cometer erros. Tudo o que você precisa fazer é se esforçar para não cometer o mesmo erro duas vezes. Trabalhe arduamente, um passo de cada vez, e não repita seus fracassos passados. Está perdoada, Narberal Gamma.”
Narberal ponderou o desejo de pagar por seus erros se matando contra a lealdade que a obrigava a obedecer a ordem de Ainz. Depois de um tempo, o equilíbrio em sua balança mental parecia ter se inclinado para o lado.
Narberal baixou a cabeça lentamente.
“Meus mais profundos agradecimentos! Eu me esforçarei para não cometer o mesmo erro novamente!”
“...Bem, não dê tanta atenção assim. O nome de Momon, o aventureiro — meu disfarce —, não foi completamente comprometido, então você só precisa prestar mais atenção no futuro. Mas... dependendo das circunstâncias, podemos precisar eliminar esse Nfirea...”
“Devo cuidar dele agora?”
“Não seja tola. Não podemos falhar em um contrato tão importante.”
A avó de Nfirea era uma famosa herborista em E-Rantel. Irritar ou fazer ela de inimigo, tornaria mais difícil para Ainz alcançar seus objetivos.
“De todo modo... Vamos ver como as coisas progredirão.”
Isso era tudo o que Ainz poderia pensar no momento.

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