Overlord V02-07 (Viagem - Parte2)


Apesar de haver pouco tempo antes de anoitecer, os aventureiros já estavam montando acampamento.

Ainz pegou as estacas de madeira que lhe foram entregues e as ergueu ao redor do acampamento. Era necessário abrigar um cavalo e uma carroça, o acampamento em questão tinha cerca de 20 metros de cada lado e cobria uma área relativamente grande.

As estacas seriam colocadas em quatro pontos ao redor do acampamento, e então cordas finas e enegrecidas seriam amarradas nas estacas, formando um perímetro. Finalmente, eles amarrariam um nó em uma das cordas e a puxariam para as tendas, onde colocariam um grande sino. Este seria o sistema de alarme deles.

Enquanto Ainz fincava as estacas no chão, Narberal apareceu.

...Narberal deveria ter algum trabalho a fazer... talvez ela tenha acabado. Mas e se aquele tal de Lukrut a tiver enraivecido de novo, tudo o que eu posso fazer é repreendê-la de novo...

Com esses pensamentos em mente, Ainz se virou. Ao fazê-lo, Narberal falou em voz baixa, sugerindo que estava reprimindo sentimentos de raiva:

“...Eles não deveriam estar o incomodando com um trabalho como esse, Momon-san.”

Ainz suspirou de alívio quando soube o motivo da raiva dela. Ele olhou em volta e depois respondeu em voz baixa:

“Todos estão trabalhando em conjunto para montar o acampamento. Seria estranho se eu fosse o único a não fazer nada, não?”

“Eles não viram a extraordinária habilidade de luta do senhor? As pessoas devem fazer algo que combina com o que são, por isso esse tipo de trabalho deve ser deixado para os fracos como eles.”

“Não diga isso. Escute, precisamos nos estabelecer como indivíduos poderosos, mas não devemos projetar uma imagem de arrogância enquanto fazemos isso. Você precisa aprender essa última parte, mesmo que um pouco.”

Narberal assentiu para mostrar que entendia, mas o descontentamento era evidente em seu rosto. Ela só estava concordando com isso porque era uma ordem expressa do próprio Ainz.

Ele sabia que sua lealdade era suficiente para superar sua infelicidade. Por outro lado, o pensamento de que isso poderia causar um deslize em um momento inoportuno fez Ainz se sentir desconfortável.

A verdade é que Ainz estava se divertindo muito com essas atividades ao ar livre. Afinal, isso era algo que ele não poderia experimentar no mundo virtual de YGGDRASIL, muito menos na vida real e, portanto, isso o encheu com fascínio. Embora a coisa toda tivesse levado muito tempo, também lembrou Ainz das aventuras que ele tinha explorado em lugares desconhecidos em YGGDRASIL.

Se apenas eu tivesse vindo para este novo mundo, sem toda a Nazarick comigo, com certeza eu sairia viajando pelo mundo, nem pensaria duas vezes.

Os undeads não precisavam comer, beber ou respirar. Sendo esse o caso, eles poderiam escalar altas montanhas com suas próprias duas pernas, ou caminhar até as profundezas do oceano. Ele teria se divertido ao testemunhar as paisagens desconhecidas do mundo.

No entanto, agora que os tesouros de seus camaradas — seus leais subordinados — estavam aqui, Ainz sentiu que deveria retribuir sua lealdade ao governar Nazarick de forma exemplar.

Ainz deixou seus pensamentos de lado e calmamente retornou ao seu trabalho. Depois de martelar as quatro estacas de madeira no chão, ele amarrou a corda em volta delas e depois levantou a tenda sobre.

“Obrigado por se empenhar nisso.”

“Não há de quê.”

Lukrut estava dentro da tenda e agradeceu Ainz sem olhar para ele. Era meio rude, mas não era como se ele estivesse descansando. Ele havia começado a cavar um buraco para a fogueira.

O magic caster — Ninya — andava de um lado para o outro ao redor, incitando uma magia enquanto passava. Esta era a magia 「Alarm」 e, como o nome sugeria, era uma magia de alarme que acionaria se algo invadisse o acampamento deles. Embora tivesse uma pequena área de efeito, ainda era útil como redundância.

Esta magia, que não existia em YGGDRASIL, fez Ainz estreitar os olhos.

Embora ele tenha passado a tarefa de aprender magia desconhecida para outras pessoas, como um magic caster, ele ainda sentia o desejo de saber sobre magias que nunca tinha visto antes.

A magia usada por Ninya era um encantamento do tipo arcano, o tipo que Ainz poderia usar. Além disso, parecia muito semelhante a uma magia de YGGDRASIL. Ainz tinha usado uma habilidade racial chamada 「Dark Wisdom」 para realizar um ritual que aumentava o número de magias que ele conhecia.

Será que eu posso aprender magias que não existem em YGGDRASIL fazendo um sacrifício vivo? Ou existe outra maneira? Há tantas coisas que ainda não faço a menor idéia de como funcionam...

Quando Ninya percebeu que Ainz estava o encarando, ele sorriu e se aproximou de Ainz.

“Ah, não há necessidade de me observar desse jeito. Não acha que é bem chato?”

“Bem, magia desperta a minha curiosidade e estou interessado no que você está fazendo, Ninya-san.”

“Nem pensar... comparado à Nabe-san, minhas magias não são nada, não?”

“Nada disso. É porque você sabe magias que a Nabe não sabe.”

Narberal assentiu levemente, mas Ainz notou pelo canto do olho que a expressão de Narberal era mais ciúmes do que compressão.

“Eu gostaria de usar magias como você, Ninya-san.”

“Você é ganancioso, Momon-san. Mesmo sendo tão forte e usando espadas de forma tão incrível, ainda pensa em aprender magias... se bem que, acho que só está tentando ser o que os aventureiros realmente deveriam ser.”

“Magia não é bem o tipo de coisa dá pra aprender do dia pro outro. Bem, você precisa se conectar ao mundo, mas apenas pessoas com o dom apropriado conseguem. Caso contrário, você precisará levar muito tempo para ter resultados.”

Essas palavras vieram de Lukrut, que se intrometeu sem se virar para olhar de onde estava montando a fogueira. O rosto de Ninya ficou sério:

“Mmn. Momon-san, acho que você tem esse dom. Sinto que é diferente das outras pessoas... é como se não fosse humano...”

O coração inexistente de Ainz parecia cambalear em seu peito. Ainz se perguntou se Ninya havia percebido que ele era undead.

Embora ele já tivesse se encoberto em ilusões e magias de contra-detecção, Ninya poderia ter visto Ainz com uma magia desconhecida ou alguma outra habilidade especial. Portanto, Ainz perguntou a Ninya:

“...Você acha? Estou confiante da minha força, mas não é nada desumano assim. Mesmo vendo meu rosto, você ainda acha isso?”

“Não tem nada a ver com sua aparência... é só que depois de te ver lutar, você está claramente além do reino da humanidade. Cortando um Ogro com um só golpe... é como dizem, um homem de verdade se dá pela força, não pela aparência. E você tem uma beldade como a Nabe-san ao seu lado.”

Após uma análise mais profunda, Lukrut parecia estar dizendo que a face ilusória que Ainz mostrara era feia. No entanto, quando ele pensou sobre a aparência de todos que ele conheceu até agora, Ainz só podia se sentar e aceitar sua opinião.

A maioria das pessoas que encontrei neste mundo são bonitas! Até os transeuntes são atraentes. Depois dessa, tenho certeza que seria melhor ter escolhido outra aparência para meu personagem...

“Aparências à parte, Lukrut disse algo lógico. Um herói é alguém que ultrapassa o reino da possibilidade humana. E eu sinto o mesmo quando olho para você.”

“Que isso, estão exagerando... Independentemente da definição, eu não ousaria me autoproclamar herói, mesmo que fosse educado.”

Ainz fingiu constrangimento ao responder Ninya, e resistiu à vontade de suspirar de alívio.

“Se for conveniente, você gostaria de conhecer meu Mestre? O Talento do Mestre está em detectar o poder mágico de um indivíduo. Se você nasceu com potencial mágico, o Mestre deve ser capaz de sentir isso. Quando se trata de magic caster arcanos, o Mestre pode até diferenciar entre eles pelos níveis de magia que eles podem conjurar.”

“Já ouvi falar disso antes... esse Talento é o mesmo possuído pelo chefe da academia de magia do Império?”

“Sim, é o mesmo Talento.”

Ainz não podia deixar uma informação dessas escapar por entre seus dedos. Ele precisava continuar perguntando sobre isso.

“...E como isso funciona?”

“Ahh, de acordo com o Mestre, nós, magic casters, irradiamos algo como uma aura de nossos corpos. Quanto mais apto alguém é em usar magias, mais forte se torna a aura. O Mestre tem a capacidade de ver essas auras.”

“OH— oh.”

Ainz imediatamente reprimiu a surpresa silenciosa em seu tom e, a fim de encobri-lo, prontamente respondeu em um tom mais normal.

Ninya continuou:

“Foi assim que o Mestre reuniu crianças talentosas e as treinou em magia. Fui recrutado pelo Mestre dessa maneira.”

Ainz assentiu e amaldiçoou silenciosamente em seu coração.

Há pessoas com habilidades assim. Isso pode ser problemático...

“Então, se eu quisesse aprender como lançar magias, por onde deveria começar?”

“Para começar, você precisa de um bom professor.”

“...E que tal se eu for seu discípulo, Ninya-san?”

“Hm... você provavelmente deveria encontrar alguém mais habilidoso do que eu. O problema é que as escolas no Reino são muito exclusivas, pessoas sem conexões não podem participar da Guilda dos Magistas. Mesmo se você pudesse participar, a maioria dos recrutas seriam crianças imaturas. Seria muito difícil para alguém da sua idade entrar sem algum tipo de contato especial, Momon-san. Ainda nisso, o Império tem uma academia de magia, e a Teocracia tem um padrão muito alto de educação mágica também, embora isso seja por magia divina.”

“Entendi, quer dizer que se eu entrasse na academia de magia do Império, eu conseguiria aprender magia?”

“Isso seria bem difícil. A academia é uma instituição educacional administrada pelo governo, então eu acho que você teria que ser um cidadão do Império para estudar lá.”

“Isso complica...”

“E quanto a tornar-se meu discípulo, me desculpe por isso, devo recusar. Eu tenho algo que quero fazer e não tenho tempo livre para treinar pessoas.”

O rosto de Ninya ficou sombrio. Havia indícios de hostilidade em meio à emoção negativa ali presente.

Talvez eu não deva me intrometer demais. Não vou ganhar nada com isso.

Assim que Ainz chegou a essa conclusão, Lukrut interrompeu sua linha de pensamento com palavras casuais:

“Ei~ desculpe interromper a conversa, mas o jantar tá pronto. Se importa em ir chamar aqueles três ali?”

“Eu vou, Momon-san.”

“Ehhhh~ Nabe-chan, não quer vir? Vamos ficar juntos e fazer um jantar cheio de amor, que tal?”

“Morra, ser inferior (centopeia). A menos que você queira me ver derramar óleo fervente em sua garganta, não ouse dizer tamanho absurdo novamente.”

“Chega, Nabe. Vamos juntos.”

“Sim! Entendido!”

Depois de agradecer Ninya, Ainz se aproximou das duas pessoas que trabalhavam em silêncio no chão, a uma curta distância da tenda.

Peter e Dyne estavam focados na manutenção de suas armas. Eles lubrificaram-nas para evitar que a ferrugem se acumulasse, inspecionaram-nas cuidadosamente para ver se estavam desalinhadas e assim por diante.

Havia novas endentações em suas armaduras e trincas em suas espadas de onde haviam entrado em confronto com as armas dos Goblins. Naturalmente, esses defeitos tinham que ser remediados o mais rápido possível, os dois estavam tão concentrados que Ainz não sabia se deveria chamá-los.

Depois de dizer-lhes que o jantar estava pronto, ele chamou Nfirea, que estava na carroça há alguns metros da fogueira.

♦♦♦

O sol tocou o horizonte e o grupo jantava enquanto o brilho rubi de sua luz desvanecia.

Em suas mãos, eles seguravam tigelas de ensopado grosso aromatizado com pedaços de bacon, bem como pão torrado, figos secos e algumas variedades de nozes. Este era o jantar de hoje.

Ainz olhou para a tigela de guisado em suas mãos. Parecia ser muito salgado. Ele não conseguia sentir o calor da tigela através de suas manoplas de metal, mas a julgar pela maneira como todo mundo estava comendo grandes bocados e não soprando para esfriar, deveria estar na temperatura certa.

O que eu faço agora?

Ainz era um undead, e ele não podia comer com esse corpo. Além disso, ele havia disfarçado sua aparência com uma ilusão. Se ele tentasse beber uma sopa com a boca, a comida se espalharia imediatamente pelo seu corpo esquelético.

Custasse o que custar, ele não podia deixar os outros verem isso.

Eram comidas e bebidas desconhecidas de um mundo desconhecido. Embora os pratos à sua frente fossem simples, Ainz sentiu que era uma pena não poder apreciá-los.

Embora não tivesse mais necessidade ou desejo de comer, ele não estava satisfeito com o fato de não poder consumir a comida deliciosa que despertava sua curiosidade.

Pela primeira vez desde que ele veio a este mundo, ele se arrependeu de possuir um corpo undead.

“Ah~ Tem algo na comida que não gosta?”

Lukrut perguntou quando notou que Ainz não tinha tocado na comida.

“Não, é apenas uma questão pessoal.”

“Mesmo? Então você não precisa se forçar. Bem, estamos comendo agora, então se quiser tirar o elmo, fique à vontade.”

“...É por motivos religiosos. Eu não posso comer com mais de quatro pessoas em dias que eu tiro a vida de algo.”

“Oh... é uma religião bem incomum, Momon-shi. Mas bem, o mundo é bem grande e religiões assim devem mesmo existir por aí.”

A dúvida em seus olhos desapareceu quando souberam que tinha algo a ver com religião.

Parece que as religiões neste mundo são complicadas.

Enquanto Ainz pensava isso, ele dava silencioso agradecimento aos deuses que ele não acreditava, de alguma forma eles o ajudaram. Para mudar de assunto, ele perguntou a Peter:

“Eu lembro que o nome da sua equipe é Espadas das Trevas, mas eu não vejo uma lâmina escura entre vocês... então?”

Sobre as armas de cada um do grupo, Peter usava uma espada longa com um encantamento simples, Lukrut se favorecia com arco e flecha, Dyne usava uma maça e Ninya um cajado. A espada de Peter e a espada curta de emergência que Lukrut usava, eram ambas lâminas, mas nenhuma delas tinha uma cor que estava em qualquer lugar perto de Trevas, Escuro ou Sombrio.

Havia uma técnica para tingir o metal de uma cor diferente, depositando um pó especial em sua superfície, de modo que criar uma espada negra não era uma tarefa difícil. Em vez disso, parecia estranho que nenhum deles tivesse uma lâmina dessa cor.

“Ah, sobre isso...”

Lukrut sorriu sem graça, como se alguém tivesse trazido uma lembrança embaraçosa. O rosto de Ninya ficou vermelho brilhante, uma cor distintamente diferente do brilho do fogo.

“Essas espadas fazem parte do sonho do Ninya.”

“Ah, qual é, já disse um monte de vezes... aquilo foi criancice minha.”

“Isso não é motivo para se sentir mal! É importante ter um bom sonho!”

“Dá um tempo Dyne, eu estou falando sério.”

O riso bem-humorado acompanhou a provocação de Ninya pelos outros Espadas das Trevas. Ninya, por outro lado, estava tão envergonhado que estava procurando por um buraco para entrar. Parece que o nome “Espadas das Trevas” continha um segredo que apenas seus membros conheciam.

“Bem, o nome ‘Espadas das Trevas’ refere-se às espadas carregadas por um dos Treze Heróis.”

O sorridente Peter parou ali, aparentemente sem vontade de ir mais longe.

Mesmo que ele diga isso, não tenho certeza do que está acontecendo... ainda assim, sei que os Treze Heróis foram os super-heróis que destruíram os Deuses Demônios, que estavam atacando o mundo duzentos anos atrás. Se eu sou ignorante sobre esses heróis e seus equipamentos... seria vergonhoso? Ou devo apenas dizer que eu sei?

Enquanto Ainz estava agonizando sobre essa questão, Narberal interrompeu em seguida.

“O que elas são?”

Maravilhoso.

Ainz fez uma pose de vitória em seu coração, mas a surpresa cruzou os rostos dos membros do Espadas das Trevas.

Qualquer um ficaria chocado se alguém não soubesse nada sobre as armas mágicas para as quais a equipe foi nomeada.

“Nabe-chan, você não sabe? ...Bem, não é como se fosse imperdoável. Ele era um dos Treze Heróis, mas as pessoas achavam que ele tinha ascendência demoníaca, ele acabou sendo mais um anti-herói. Portanto, suas origens foram encobertas na saga dos Treze Heróis... mas é dito que ele era muito forte.”

“As Espadas das Trevas pertenciam ao homem conhecido como ‘Cavaleiro Negro’. Era uma das quatro espadas que ele possuía. Havia a lâmina Amaldiçoada, Kilineiram, que poderia emitir energia escura. A lâmina Corrompida, Crocdabal, que infligia feridas que não cicatrizam. A lâmina da Morte, Sfeiz, que poderia matar com o menor arranhão, bem como a lâmina Maligna Hyumilis, cujos poderes são desconhecidos.”

“Oh...”


Todos sorriram amargamente com a resposta sem entusiasmo de Narberal.

No entanto, Ainz inclinou a cabeça pensativo. Essas habilidades pareciam familiares.

Depois de pensar cuidadosamente, a imagem de um vampiro apareceu em sua mente. Essas habilidades especiais eram semelhantes às habilidades possuídas por Shalltear Bloodfallen, que tinha níveis na profissão Cavaleiro Amaldiçoado.

As profissões relacionadas aos Cavaleiros Amaldiçoados tinham a história de serem corruptos, cavaleiros e clérigos que tinham sido amaldiçoados, eram consideradas como profissões muito fortes em YGGDRASIL. No entanto, eles tinham muitas desvantagens, por isso não eram muito populares. Entre as habilidades que poderiam aprender, estava a habilidade de liberar ondas de escuridão, infligir feridas amaldiçoadas que não poderiam ser curadas por magias de cura de baixo nível, maldições imediatas de morte, e assim por diante.

Ainz estreitou seus olhos ilusórios sob o elmo. Isto não era uma coincidência. Enquanto as Espadas das Trevas podem ser armas com poderes semelhantes às de um Cavaleiro Amaldiçoado, então seria mais provável que o próprio herói fosse um Cavaleiro Amaldiçoado.

Se fosse esse o caso, quando se considerasse os pré-requisitos para se tornar um Cavaleiro Amaldiçoado, era certo que este “Cavaleiro Negro” tinha pelo menos o nível 60 — não, se alguém considerasse que ele tinha que aprender todas essas habilidades também, ele teria que ser pelo menos nível 70.

Parece que os Deuses Demônios eram igualados contra heróis assim, então era uma hipótese razoável que seus níveis fossem aproximadamente os mesmos. No entanto, Nigun da Escritura da Luz Solar disse que o Dominion Authority que ele convocou poderia derrotar um Deus Demônio, então parece que os Deuses Demônios e os Heróis não estavam no mesmo nível.

Depois de comparar essa nova informação com o que ele já sabia, parecia lógico que os Deuses Demônios não fossem todos igualmente poderosos. No entanto, a única maneira de saber com certeza seria encontrar esse herói ou obter as tais espadas.

Enquanto Ainz ponderava isso, o resto do grupo continuou falando. Ainz rapidamente voltou sua atenção para a conversa deles; seria uma pena perder a chance de aprender alguma coisa por estar distraído.

“Então encontrar essas espadas foi meu primeiro objetivo. Há muitas lendas sobre armas por aí, algumas realmente são verdade. Mas acontece que, se realmente existem essas Espadas das Trevas ou não, ainda é um mistério...”

“Ah, tem uma pessoa que possui uma das Espadas das Trevas.”

Depois que Nfirea calmamente deixou cair aquela bomba, o grupo dos Espadas das Trevas encararam ele:

“Quem, quem é?”

“Uwah! Mesmo? Então significa que restam apenas três!”

“Oh, agora não vai dar pra distribuí-las uniformemente para todos...”

Nfirea respondeu cautelosamente:

“Er, sobre isso... a pessoa que possui essa espada é a líder do grupo de aventureiras chamado Rosa Azul.”

“Geh, adamantite, aquelas lá? Aventureiras desse nível? Então não podemos fazer nada quanto a isso.”

“Isso é verdade. Mas se animem, ainda restam três delas; vamos trabalhar arduamente para que possamos ser fortes o suficiente para usá-las.”

“Isso aí. Se existe uma, então significa que as outras três estão por aí. Espero que essas espadas estejam escondidas em um lugar que ninguém descobriu até agora.”

“Ninya, melhor escrever no seu diário, não vai querer se esquecer disso.”

“Eu sei, vou anotar isso com certeza. Ei, isso é algo privado, não é melhor memorizar?”

“É melhor ter uma cópia escrita!”

“Aí que mora o problema, Dyne...”

“Mas enfim, nós temos isso.”

“O que seria ‘isso’?”

Isso, Momon-san.”

Peter pegou uma adaga com quatro joias cravadas na bainha. Tinha uma lâmina negra.

“Enquanto não temos as verdadeiras, planejei usar isso como símbolo do nosso grupo...”

“Mas Adagas das Trevas não soa tão bem quanto Espadas das Trevas, não é? Pensando bem, não é como se fosse uma farsa. E por isso será o símbolo perfeito do nosso grupo!”

“Oooh, lá vem o Lukrut bancando o sentimental de novo!”

Os aventureiros riram, irradiando um ar de camaradagem.

Ainz foi afetado por isso e sorriu em resposta. Eles provavelmente sentiam o mesmo que Ainz sentia sobre o cajado que representava a guilda de Ainz Ooal Gown.

A conversação do jantar continuou, e os Espadas das Trevas, tendo a vantagem dos números, aproveitaram para fazer perguntas a Ainz, Narberal e Nfirea.

Ainz respondeu o melhor que pôde, mas ele ainda sentia uma barreira separando-o dos Espadas das Trevas. Isso porque Ainz não tinha conhecimento sobre este mundo, e ele não podia se envolver completamente para que sua ignorância não fosse revelada. Assim, Ainz ficou quieto sobre coisas que não conhecia, o que por sua vez o levou a se afastar ainda mais dos aventureiros em um ciclo vicioso.

Embora os aventureiros tentassem conversar com Narberal, tudo o que ela fez foi responder rápido e direto, como uma pedra atirada ao longe, deixando-os sem meios de responder. Eventualmente, eles lentamente pararam de tentar falar com ela.

Nfirea, por outro lado, lidava muito bem com o falatório.

Como um nativo deste mundo, ele se dava melhor com os outros do que com Ainz. Ele era observador e podia seguir bem a discussão dos aventureiros.

...Não é nada de mais. Eu já tive amigos assim.

Esses pensamentos infantis, quase como uma birra, percorreram a cabeça de Ainz enquanto ele observava os outros conversando alegremente à luz da fogueira.

Pareciam muito próximos uns dos outros, mas isso era de se esperar de um grupo de companheiros que ficaram entre a vida e a morte na companhia um do outro. Nfirea tinha uma expressão de inveja no rosto enquanto olhava para eles.

Ainz recordou seus amigos do passado e, sob o elmo, ele cerrou os dentes em silêncio, com inveja.

—No passado ele tinha sido como eles.

“...Bem, vocês são uma equipe com muita intimidade. Todos os aventureiros são assim?”

“Eu gosto de pensar que sim. Afinal, os aventureiros são colegas que enfrentam a morte juntos. Seria perigoso se eles não se entendessem entre o que planejam fazer. Então, em algum lugar ao longo do caminho, os aventureiros acabam ficando muito próximos uns dos outros.”

“É isso aí. Além do mais, não temos nenhuma mulher na nossa equipe. Ouvi dizer que as equipes com mulheres tendem a ter muitas disputas.”

“...Pois é.”

Com um sorriso indecifrável, Ninya continuou:

“E se houvesse, o Lukrut seria o primeiro a fazer isso. Mas enfim, nosso grupo tem um objetivo em comum, lembram?”

Peter e os outros assentiram ao mesmo tempo.

“...Então é isso. O sentimento é completamente diferente quando todos trabalham como um.”

“Hmm? Momon-san, você já esteve em um grupo de aventuras antes?’

Ainz não sabia como responder à pergunta de Nfirea, mas no momento não precisava inventar uma desculpa estranha para encobrir.

“Nós provavelmente não seríamos considerados... aventureiros.”

Ele não podia deixar de tomar um tom sombrio enquanto pensava sobre seus antigos amigos. Afinal, ele ainda tinha emoções — apesar de seu corpo ser undead — e seus amigos eram as pessoas que Ainz mais apreciava.

Sentindo a dificuldade de Ainz em responder, ninguém insistiu no assunto, e o silêncio caiu sobre o grupo.

Em meio a esse silêncio tão profundo, o sentimento que todos compartilhavam era que eles seriam as únicas pessoas no mundo. Ainz inconscientemente levantou a cabeça e olhou para o céu noturno repleto de estrelas.

“Quando eu não passava de um fraco, um paladino brandindo uma espada e escudo e trajando uma armadura prateada de puro branco, me salvou. Através dele, conheci mais quatro companheiros. Então, formamos uma equipe que contava com seis pessoas, incluindo eu mesmo. Além disso, com o passar do tempo encontramos mais três pessoas fracas como nós e acabamos como uma equipe de nove pessoas.”

“Ohh...”

Alguém exclamou baixinho, em meio ao crepitar da fogueira. No entanto, Ainz não se incomodou e continuou contando a história dos nove membros iniciais do que um dia se tornaria a Ainz Ooal Gown.

“Eles eram todos excelentes companheiros. Um paladino, um espadachim, um sacerdote, um assass... um ladino, um ninj... um ladino com duas espadas, um conjurador, um cozinheiro, um ferreiro... eles eram todos amigos insubstituíveis. Tivemos inúmeras aventuras juntos e, mesmo agora, ainda não consegui esquecer aqueles dias.”

Através deles, Ainz aprendeu o significado de amizade. Outrora até pensou que seria ignorado em YGGDRASIL, assim como no mundo real, mas ao contrário da realidade, eles acabaram tornando-se melhores amigos, capazes de estender uma mão amiga sempre que necessário. E assim, à medida que o número de membros do grupo aumentava constantemente, eles compartilhavam suas alegrias e tristezas juntos.

Assim sendo, a guilda chamada Ainz Ooal Gown era um tesouro para Ainz. Ele garantiria que seu brilhantismo nunca fosse diminuído, mesmo que ele tivesse que descartar ou destruir tudo para fazer isso.

“Tenho certeza que encontrará companheiros como eles novamente algum dia.”

Em resposta às palavras reconfortantes de Ninya, Ainz retrucou:

“Tal dia nunca chegará.”

A hostilidade no tom de Ainz surpreendeu a todos, até a si mesmo. Alarmado pelo que ele dissera, Ainz levantou-se lentamente.

“...Me perdoe. Nabe, vou jantar lá.”

“Então eu irei também.”

“Entendi... bem, se é um assunto religioso, então não há nada que possamos fazer.”

Havia um toque de pesar na voz de Peter, mas ele não insistiu para que ficassem.

Embora notasse o olhar deprimido no rosto de Ninya, Ainz não pretendia dizer mais nada.

Talvez um simples “eu não estou incomodado por isso” teria bastado.

♦♦♦

Os dois jantaram em outro canto isolado da área de acampamento.

Os que ficaram atrás discutiram sobre o par que havia saído. Era de se esperar, dado o que as pessoas ausentes tinham realizado hoje.

Então, a conversa parou e o silêncio desceu sobre o grupo. A fogueira crepitava e cuspia brasas que dançavam no céu. Enquanto Ninya observava os traços brilhantes desaparecerem no ar, ele murmurou em um tom autoexplicativo:

“...Acho que eu disse algo que não devia.”

“Uhun. Parece que algo aconteceu no passado deles.”

Dyne assentiu profundamente e então Peter continuou:

“Eu acho que eles foram aniquilados. Eu já vi esse tipo de reação de pessoas que perderam todos os seus amigos em batalha.”

“Isso... deve ser difícil de suportar. Mesmo se estamos acostumados a andar juntos, perder um amigo ainda é...”

“Isso mesmo, Lukrut. As palavras ditas agora não foram as melhores que poderiam ter sido ditas.”

“Bem, o que foi dito não pode ser desdito. Então, precisamos fazer algo que o faça mudar de idéia sobre essas palavras.”

Ninya parecia bastante deprimido enquanto respondia, e então ele calmamente continuou:

“Eu sei o que é perder alguém, então por que eu não me coloquei no lugar dele?”

Ninguém o respondeu.

Os troncos da fogueira crepitavam e brasas revoavam no meio do silêncio.

Em uma tentativa de aliviar o clima, Nfirea falou com cuidado:

“...A luta do Momon-san foi realmente espetacular.”

Como se esperasse por essas palavras, Peter imediatamente acrescentou:

“Sim, eu não achei que seria tão incrível. Ele cortou um Ogro em dois...”

“Aquilo foi exagerado além da conta.”

“Derrotar um Ogro com um golpe já é incrível, mas quão bom o sujeito tem que ser para dividi-lo ao meio?”

Os Espadas das Trevas se entreolharam depois de ouvir a pergunta intrigada de Nfirea.

Nfirea era um jovem muito famoso por seu Talento de nascença, bem como por um excelente magic caster. Embora pudesse muito bem chocar o mundo com suas habilidades, era difícil para ele entender toda a extensão da proeza de Ainz sem outro guerreiro para comparação.

Com isso em mente, Peter começou a explicar para Nfirea, de uma forma tão fácil de entender quanto possível:

“Normalmente, as espadas grandes são usadas de maneira que use o peso da arma para fazer o corte, mas ele empregou um método de golpe direto usando sua própria força. Normalmente, ao usar uma espada grande com uma mão, seria muito difícil cortar os membros de inimigos tão grandes quanto os Ogros... mas parece que há uma exceção a isso agora.”

Nfirea ofegou ao ouvir as palavras de Peter. Peter sentiu que Nfirea não estava suficientemente impressionado e decidiu nomear alguém com quem poderia estar mais familiarizado:

“Vou ser honesto com você, acho que o Momon-san está no mesmo nível do Capitão Guerreiro do Reino.”

Os olhos de Nfirea se arregalaram de espanto. Ele finalmente entendeu o que os Espadas das Trevas pensavam das habilidades de Ainz.

“...Quer dizer, ele poderia ser um aventureiro adamantite... os aventureiros mais bem classificados, lendas vivas, em outras palavras, os seres humanos mais poderosos?”

“Exatamente.”

Peter respondeu acenando a cabeça suavemente. Nfirea olhou para os outros membros do Espadas das Trevas, que também assentiam em aprovação.

Ele ficou perplexo.

Os aventureiros classificados como adamantite possuíam placas de guilda feitas de adamantite, um raro material mágico, o metal mais duro conhecido pelo homem. Se os aventureiros e seus números formassem uma pirâmide, os aventureiros adamantite ocupariam o pico e seriam correspondentemente escassos. Tanto o Reino quanto o Império só possuíam duas equipes de aventureiros classificadas como adamantite.

Suas habilidades estavam no auge da humanidade. Pode-se até chamá-los de Heróis.

E Momon era uma pessoa que poderia rivalizar com eles.

“Isso é incrível...”

Pode-se ouvir o assombro total nessas palavras.

“No começo... A primeira vez que vi o Momon-san, trajando uma armadura completa toda estilosa enquanto usava uma placa de cobre, eu me senti muito ciumento, mas agora que eu vi que ele tem a habilidade a par com sua aparência, não há mais nada que eu possa dizer. Ele— as habilidades do Momon-san são dignas de sua armadura. Eu tenho inveja de como ele é forte...”

Peter, o guerreiro, não usava armadura completa. Em vez disso, ele usava partes de uma armadura segmentada e cota de malha, isso não dava muita proteção se comparado à armadura de Ainz. Isso não foi por preferência pessoal, mas sim era a melhor armadura corporal que ele podia pagar com seus recursos limitados.

“Não se preocupe com isso; tenho certeza de que em breve você poderá comprar um conjunto de armadura completa, Peter.”

“De fato. Você deve trabalhar arduamente pra isso. Realmente, você deve estar feliz por ter a oportunidade de testemunhar um exemplo de como é estar no topo.”

“Concordo com o Ninya, tudo o que precisa fazer é trabalhar arduamente para alcançar o patamar de Momon-san. E estamos aqui para te dar todo o apoio, então vamos melhorar juntos.”

“Exato! De forma lenta, mas consecutiva, seu trabalho árduo vai ser recompensado! Tenho certeza de que o Momon-shi deve ter treinado mais do que você!”

As palavras de Dyne despertaram dúvidas no coração de Nfirea:

“Vocês já viram como o Momon-san é sem aquele elmo?”

Ainz não havia retirado seu elmo depois de conhecer Nfirea, nem mesmo enquanto comia. Como ele bebia também era um mistério.

“Vimos sim. Ele parece uma pessoa comum... mas não parece ser da região. Ele e a Nabe-san têm cabelos e olhos escuros.”

“Interessante... e ele disse de qual país veio?”

Os Espadas das Trevas se entreolharam e de repente perceberam que Nfirea parecia muito interessado nesse assunto.

“Bem, ele não conversou muito sobre isso...”

“Quer dizer quê... ah, não, eu só estava pensando que se ele viesse de um país distante, ele usaria poções diferentes das disponíveis na região. É apenas minha curiosidade como um herborista falando mais alto.”

“Ah — bem, ele parece ser do mesmo lugar que a Nabe-chan, mas a aparência deles é diferente — ele não é do tipo bonitão, sabe? Alguém gosta de pessoas assim—?”

“Bem, ele não é bonitão, mas forte daquele jeito, tenho certeza que tem um bando de mulheres loucas por ele.”

Indivíduos fortes eram populares. Isso porque nesse mundo tinha monstros, e os humanos estavam na extremidade inferior da curva de força. Como resultado, os instintos inatos das mulheres fizeram com que elas desejassem machos fortes.

“Haah~ não me diga que meus sentimentos por ela nunca vão florescer e dar frutos...?”

“Não, é impossível. Para começo de conversa, a flor sequer chegou a existir.”

Respondeu Ninya com um sorriso amargo ao recordar a reação de Narberal.

“Me esforcei em vão. Mas quem liga? O importante é continuar tentando e tentando e tentando. A insistência é a chave. Bem, ela é bem gostosa. Se ela fosse apenas um pouco mais gentil comigo, já seria uma grande vitória na minha vida.”

“...Ela é muito bonita...”

Na metade de sua resposta fria, Dyne notou que Nfirea tinha um olhar receoso no rosto.

“Nfirea-shi, tem algo errado?”

“Ah, não. Não é nada...”

“Oya?”

Lukrut sorriu lascivamente.

“Vai me dizer que está apaixonado pela Nabe-chan?”

“Claro que não!”

Nfirea respondeu com um tom desnecessariamente alto. Pela intensidade de sua reação, Peter sentiu que não deveriam continuar pressionando-o. Em vez disso, ele disse:

“Lukrut, você está sendo rude. Pense antes de falar.”

Nfirea parecia desconfortável e não sabia como responder ao sincero pedido de desculpas de Lukrut.

“Não, não é para tanto. É só quê... estou um pouco desconfortável... o Momon-san seria mesmo tão popular entre as mulheres?”

“...Veja bem, ele seria um sucesso apenas por sua força. Se isso não bastasse, ele parece ser muito rico, dada aquela armadura e as espadas que ele carrega...”

“Ah...”

Nfirea escondeu seu rosto com as sombras de seu cabelo. Com o tom de um veterano conversando com um novato, Peter perguntou cuidadosamente:

“Tem algo te preocupando, o que é?”

Nfirea realmente queria falar, mas se interrompeu no meio do caminho. O efeito repetiu-se algumas vezes, fazendo-o parecer um gago. Mesmo assim, Peter e os outros não o pressionaram — não havia necessidade de forçar uma resposta se ele não quisesse falar sobre isso. Não tardou muito, Nfirea se decidiu e finalmente conseguiu falar.

“Hum — é porque eu gosto de alguém lá do Vilarejo Carne e não queria que ela se apaixonasse pelo Momon-san.”

Os Espadas das Trevas habilmente captaram a mensagem escondida dentro daquelas palavras, e então sorriram calorosamente.

“Tudo bem então, jovenzinho. O Onii-san aqui vai te ensinar uma incrível técnica...”

Peter deu um soco em Lukrut, que fez um gemido estranho. Os Espadas das Trevas não prestaram atenção ao olhar de agonia no rosto de Lukrut e foram confortar Nfirea.

Iluminado pelo esplendor da fogueira, o menino finalmente sorriu.

♦♦♦

Enquanto isso—

Um forte impacto perfurou o elmo de aço, assim como a testa abaixo.

O corpo espasmou violentamente e depois desmoronou como uma marionete cujos cordéis haviam sido cortados. A armadura de metal ressoou alto na noite. Ele rezou para que alguém ouvisse o som, mas ninguém iria ao distrito pobre de E-Rantel, que praticamente havia sido abandonado pelos moradores. Afinal, foi por isso que o cliente havia combinado de encontrá-los aqui.

O homem olhou para a jovem mulher diante dele. No entanto, ficou claro que ele estava apenas tentando parecer corajoso. Ele perdera a vontade de lutar depois de ver a mulher matando casualmente três de seus companheiros.

A jovem que havia assassinado seus colegas, sacudiu os saltos manchados de sangue. O ichor se espalhou em todas as direções, e as lâminas recuperaram seu brilho frio.

“Nfufufufu~ e ainda sobrou um...”

A mulher revelou seus caninos com um sorriso predatório.

“Por-por que tá fazendo isso!?”

Ele sabia que era uma pergunta estúpida, mas o homem não tinha idéia do porquê isso estava acontecendo com ele.

Esses homens eram desertores entre os aventureiros. O termo para eles era Trabalhadores, ou Trabalhadores do Crepúsculo. Eles assumiram empregos que eram limítrofes, ou por vezes, ilegais.

Isso pode ter sido o resultado de algum tipo de ressentimento, mas ele nunca havia trabalhado nessa cidade antes. Nem tinha visto essa garota antes.

“Ah, por que eu fiz isso? Bem, é que... eu queria ficar a sós com você, Onii-san~.”

O homem não conseguia entender do que a garota estava falando. Ele piscou várias vezes e então perguntou:

“O quê? Como assim?”

“Parece que o famoso neto da herborista não está em casa~ Eu queria que alguém os vigiasse para mim e avisasse quando eles voltassem. Eu não posso perder tempo com essas tarefas chatas~.”

“Era só ter pedido isso logo! Você não pensou nisso antes!?”

Trabalhadores como eles aceitariam de bom grado trabalhos ilegais, por isso ele não fazia idéia do motivo pelo qual essa garota os estava massacrando.

“Nana~nina~não, você já pode ter me traído~.”

“Pagando tudo certo pelo serviço, jamais trairíamos o nosso empregador!”

“Hmmm~? E que tal isso? Eu gosto de matar pessoas, eu amo, fico maluquinha só de imaginar. Ah, e eu também gosto de tortura.”

A jovem acrescentou com uma risadinha.

Depois de ouvir essa resposta absurda, o rosto do homem enrijeceu e ele disse:

“Você é maluca! Por quê!?”

“Por quê...?”

A voz da jovem mudou. O tom de brincadeira e provocação de agora foi embora.

“Hmmm... será que já me perguntei o porquê?? Talvez tenha sido porque meu trabalho envolve matar muitas pessoas? Talvez tenha sido porque eu fui constantemente comparada ao meu incrível irmão mais velho? Como eles amavam ele ao invés de mim? Ou como eu fui estuprada constantemente antes de me tornar forte? Porque meus amigos morreram na minha frente? Ou talvez seja porque eu errei e fui capturada e torturada por vários dias? Pêras da angústia aquecidas machucam, sabia~?”

Parecia que havia apenas uma menina diante dele. Mas num piscar de olhos, um sorriso floresceu no rosto da mulher.

“Brincadeirinha, bobo~. Acabei de inventar isso, é mentira, mentirinha — nunca aconteceu comigo. E daí se fosse verdade, mudaria algo? Eu sou assim porque muitas coisas se acumularam— ah, falando nisso, eu preciso agradecer o Khajii-chan por me ajudar a descobrir todas essas informações, eu estou tão feliz que até iria num encontro com você~! Enfim, deve saber quanto tempo é preciso até encontrar ajuda~.”

A garota soltou seus stilettos, que foram puxados pela gravidade e afundaram no chão. A julgar pelo fio anormal, eles devem ter sido feitos de algo diferente de aço simples.

“Isso é orichalcum~ Mais precisamente, mythril envolto por uma liga de orichalcum. Uma ferramenta muito boa.”

O fato de ela ter armamento tão exótico era um sinal da destreza da mulher. Em outras palavras, ele não tinha chance de vitória.

“Então~ hora do próximo passo. Eu não posso te usar se estiver gravemente ferido, Onii-san... Maaaaas o Khajii-chan pode curar você com magia divina, não importa o quanto eu te machuque~ o que significa que eu posso aproveitar a tortura quanto teeeempo eu quiser, né?”

Enquanto ela pronunciava aquelas palavras arrepiantes, ela tirou outro par de stilettos de baixo do manto.

“Estes devem servir... desculpe se eu errar~.”

Foi adorável o modo que ela mostrou a língua para ele. Mas a imundice e escuridão de seu coração deixava tudo grotescamente retorcido.

O homem virou as costas para ela e correu. Embora tenha ouvido um suspiro exagerado de surpresa da jovem mulher, ele ainda correu como se não houvesse amanhã. Ele tinha orgulho de seu senso de direção e o usou ao máximo enquanto corria pela escuridão.

Em meio ao vento chicoteando seu rosto, houve um ruído alto atrás dele, seguido pela voz calma da mulher.

“—Muito lento~.”

Uma dor lancinante encheu seu ombro. Seu primeiro pensamento foi que ele havia sido esfaqueado por um stiletto, e então uma sombra caiu sobre seus pensamentos.

Era controle mental.

O homem tentou desesperadamente resistir, mas isso só serviu para chafurdar sua consciência ainda mais na escuridão.

A voz familiar de tom amigável veio de trás dele.

“Ah~ Você está bem? A ferida é profunda?”

“Uhum. Não muito, está tudo bem.”

O homem sorriu quando se virou para encarar a voz amigável.

“Então é assim? Que maravilha~!”

Um sorriso malévolo floresceu no rosto da jovem mulher.

Yokai POP
Yokai POP

Dividindo com o mundo as histórias que eu gosto.

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